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	<title>CSLewis.com.br - Nas pegadas de Aslam</title>
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		<title>Calourada em homenagem a C.S. Lewis</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Apr 2012 14:41:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
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		<category><![CDATA[C.S. Lewis]]></category>
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		<description><![CDATA[Oi PessoALL, Vejam só essa oportunidade dada por Deus, em homenagem a C.S. Lewis: http://www.ufc.br/portal/index.php?option=com_content&#038;task=view&#038;id=13021&#038;Itemid=1A Programação completa: da Uece: http://www.uece.br/uece/dmdocuments/Calourada.pdf Conto com as orações de todos!]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Oi PessoALL,</p>
<p>Vejam só essa oportunidade dada por Deus, em homenagem a C.S. Lewis:</p>
<p>http://www.ufc.br/portal/index.php?option=com_content&#038;task=view&#038;id=13021&#038;Itemid=1A</p>
<p>Programação completa: da Uece: http://www.uece.br/uece/dmdocuments/Calourada.pdf</p>
<p>Conto com as orações de todos!</p>
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		<title>Dragões, queda e salvação</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Jan 2012 22:45:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos de Gabriele]]></category>
		<category><![CDATA[A viagem do Peregrino da Alvorada]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas de Nárnia]]></category>
		<category><![CDATA[dragões]]></category>

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		<description><![CDATA[Olhem aí o primeiro artigo no portal da Editora Ultimato: http://www.ultimato.com.br/conteudo/dragoes-queda-e-salvacao]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Olhem aí o primeiro artigo no portal da Editora Ultimato:</p>
<p>http://www.ultimato.com.br/conteudo/dragoes-queda-e-salvacao</p>
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		<title>Colaboração Site Ultimato</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Jan 2012 22:41:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos de Gabriele]]></category>

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		<description><![CDATA[Oi Pessoal. Essa é só para avisar que também estou contribuindo mensalmente para o portal dessa admirável e querida editora. Vamos conferir sempre lá: http://www.ultimato.com.br/ &#160; Recomendo também o blog http://ultimato.com.br/sites/blogdaultimato/ &#160; &#160; &#160;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Oi Pessoal.</p>
<p>Essa é só para avisar que também estou contribuindo mensalmente para o portal dessa admirável e querida editora. Vamos conferir sempre lá:</p>
<p>http://www.ultimato.com.br/</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Recomendo também o blog</p>
<p><a href="http://ultimato.com.br/sites/blogdaultimato/" target="_blank">http://ultimato.com.br/sites/<wbr>blogdaultimato/</wbr></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Nova tradução de C.S. Lewis no Prelo &#8211; The Discarded Image</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Nov 2011 19:36:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
				<category><![CDATA[Outras Traduções relativas a Lewis]]></category>
		<category><![CDATA[Discarded Image]]></category>
		<category><![CDATA[Idade Média]]></category>
		<category><![CDATA[literatura medieval]]></category>

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		<description><![CDATA[Nova tradução de C.S. Lewis no prelo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Tenho o prazer de comunicar aos fãs e leitores vorazes de Lewis que, finalmente, tive a oportunidade de traduzir uma obra completa dele, que está para ser lançado no ano que vem. Segue uma amostra da quarta capa e do prefácio do livro, só para dar um gostinho:</p>
<p><strong>Quarta capa</strong></p>
<p><em>A Imagem Descartada</em> pinta um quadro lúcido da visão de mundo medieval, provendo o pano de fundo histórico e cultural para a literatura da Idade Média e Renascença. A obra descreve a “imagem”, descartada pelos anos subsequentes como sendo a “síntese medieval em si mesma, de toda a organização de sua teologia, ciência, e história de acordo com um Modelo Mental do Universo simples, complexo e harmonioso”. Esse último livro de C.S. Lewis tem sido aclamado como “um memorial final da obra de um grande erudito e professor e de uma mente sábia e nobre”.</p>
<p>“Sábio, iluminador, amigável, poderá muito bem vir a ser tido como o melhor livro de C.S. Lewis.”</p>
<p align="right"><em>The Observer</em></p>
<p>“&#8230; erudito e gracioso, cheio de anedota e analogia, iluminadoras das imagens do passado”.</p>
<p align="right"><em>Los Angeles Times</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>PREFÁCIO DO AUTOR</p>
<p>Este livro é baseado nas preleções apresentadas mais de uma vez em um curso oferecido em Oxford. Alguns dos que participaram expressaram o desejo de que a sua essência recebesse uma forma mais permanente.</p>
<p>Não poderia me gabar do fato de ele conter muita coisa que um leitor não teria descoberto sozinho, se, em toda parte mais dura dos livros antigos, ele tivesse que se voltar para comentadores, histórias, enciclopédias e outros recursos auxiliares desse tipo. Pensei que as preleções tivessem valido a pena e o livro valesse a pena escrever, porque aquele método da descoberta me parecia bastante insatisfatório a mim e aos outros. Pois nós só nos voltamos para esses meios auxiliares quando as partes duras são manifestadamente duras.</p>
<p>Mas há partes traiçoeiras que não nos encaminharão para as notas. Elas parecem fáceis, mas não são. Nesse caso, de novo, muitos pesquisadores <em>ad hoc</em> infelizmente prejudicam a leitura receptiva, de modo que pessoas sensíveis possam vir até a se referir à pesquisa como algo pernicioso, que sempre as conduzisse <em>para fora</em> da própria literatura.</p>
<p>Minha esperança era de que, se uma ferramenta tolerável fosse adquirida com antecedência (ainda que incompleto) e eleita acompanhante da leitura, ela o pudesse conduzir para <em>dentro </em>dela. Ficar constantemente consultando um mapa, quando haja aí uma bela vista à sua frente, destrói a “passividade sábia” com a qual uma paisagem deve ser admirada. Mas consultar um mapa antes de partirmos não tem um efeito tão avassalador. Na verdade ele nos levará a várias perspectivas; inclusive aquela que jamais teríamos descoberto apenas seguindo o nosso faro.</p>
<p>Sei que existe aquele [tipo de leitor] que prefere não ir além da impressão que uma obra antiga, por mais aleatória, dá a uma mente que lhe aplica uma sensibilidade puramente moderna e concepções modernas; da mesma forma que há exploradores determinados que carreguem a sua Gramática Inglesa por toda parte; que, misturados apenas a turistas ingleses, aproveitam de tudo que vêem por seu caráter “exótico”, sem nenhum desejo de entender o que aqueles estilos de vida, aquelas igrejas e aqueles quintais significam para os nativos. Eles têm a sua recompensa. Eu não tenho nenhum problema com pessoas que abordam o passado com esse espírito. Espero que eles também não tenham nenhum comigo. Mas eu estive escrevendo para o outro tipo de leitor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Editora É-realizações</p>
<p>http://www.erealizacoes.com.br/</p>
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		<title>Crônicas de Nárnia: Leitura obrigatória no Exército</title>
		<link>http://www.cslewis.com.br/2011/11/cronicas-de-narnia-leitura-obrigatoria-no-exercito/</link>
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		<pubDate>Wed, 02 Nov 2011 13:13:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
				<category><![CDATA[Assuntos relativos a Narnia]]></category>
		<category><![CDATA[Crepúsculo]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas de Nárnia]]></category>
		<category><![CDATA[Exército]]></category>
		<category><![CDATA[Marx]]></category>

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		<description><![CDATA[Veja notícia sobre a licitação de aquisição de livros aberta para a biblioteca do Exército Nacional. Adivinha quem se encontra entre Crepúsculo e o Capital, de Marx? Definitivamente, estamos na era da diversidade cultural e da polissemia..]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>02/11/2011 &#8211; 10h03</p>
<h2>Biblioteca do Exército terá vampiros, lobisomens e Marx</h2>
<p>Publicidade</p>
<p>BRENO COSTA<br />
DE BRASÍLIA</p>
<div id="articleBy">
<p>&nbsp;</p>
<p>Vampiros, lobisomens e personagens de contos de fadas entrarão em breve numa sala no segundo andar do Quartel-General do Exército, em Brasília.</p>
<p>O Coter (Comando de Operações Terrestres), braço operacional do Exército e responsável pela missão brasileira no Haiti, abriu licitação na semana passada para a compra de 199 livros para reforçar seu setor jurídico e uma biblioteca, de uso dos militares.</p>
<p>Entre os títulos, contudo, estão obras sem afinidade explícita com a área militar, como o primeiro volume da saga vampiresca adolescente &#8220;Crepúsculo&#8221; e o infantojuvenil &#8220;Crônicas de Nárnia&#8221;.</p>
<p>A justificativa oficial do Exército no edital é que a compra de &#8220;literatura técnico-especializada&#8221; servirá para melhorar a &#8220;autocapacitação técnico profissional dos integrantes&#8221; do Coter, além de ampliar a &#8220;qualidade dos trabalhos desenvolvidos&#8221;.</p>
<p>&#8220;Numa biblioteca normalmente tem dois tipos [de livros]. Tem a parte mais técnica, e tem também as preferências pessoais&#8221;, afirma o general de divisão Carlos Alberto dos Santos Cruz, subcomandante do Coter.</p>
<p>De acordo com o general, que pondera que a compra dos títulos ainda não está confirmada, os livros foram sugeridos em lista montada por uma bibliotecária e outros funcionários de setores especializados. Segundo Santos Cruz, após a licitação, &#8220;a lista passará por um crivo&#8221;.</p>
<p>Livros sobre histórias de guerra e de batalhas limitam-se a três títulos, como &#8220;Barbados, Sujos e Fatigados&#8221;, sobre a experiência de brasileiros na 2ª Guerra Mundial.</p>
<p>O tema está no mesmo patamar de livros de amor, como o clássico &#8220;Romeu e Julieta&#8221;, &#8220;Os Sofrimentos do Jovem Werther&#8221;, de Goethe, e &#8220;Fedro&#8221;, o tratado platônico sobre o amor.</p>
<p>Ainda estarão à disposição dos militares duas opções do pensamento do maior ideólogo do socialismo, Karl Marx: &#8220;Manifesto Comunista&#8221; e o denso &#8220;Manuscritos Econômico-Filosóficos&#8221;.</p>
</div>
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		</item>
		<item>
		<title>G.K. Chesterton sobre George MacDonald</title>
		<link>http://www.cslewis.com.br/2011/10/g-k-chesterton-sobre-george-macdonald/</link>
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		<pubDate>Mon, 24 Oct 2011 22:34:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contribuições de amigos de C.S. Lewis]]></category>
		<category><![CDATA[At the back of the North WInd]]></category>
		<category><![CDATA[G.K. Chesterton]]></category>
		<category><![CDATA[George MacDonald]]></category>
		<category><![CDATA[Princesa e o Goblin]]></category>

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		<description><![CDATA[Introdução de Chesterton à biografia de George MacDonald, escrita pelo seu filho:  “George Macdonald and His Wife”, de Greville M. MacDonald, 1924]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">George Macdonald<br style="text-align: left;" />(Introdução de Chesterton ao livro “George MacDonald and His Wife”, de Greville M. MacDonald, 1924.)</p>
<p style="text-align: left;">                                                                                                                                                                                                                                               tradução William Campos da Cruz</p>
<p>Certas revistas têm simpósios (eu os chamaria simposia, se me fosse permitido chamar duas coleções do South Kensington de “musea”) em que se pergunta às pessoas o nome de “livros que as influenciaram”, na mesma linha de “Hinos que as ajudaram”. Não é um processo realista, como regra, pois nossas mentes são, na maioria das vezes, uma biblioteca não catalogada; e, para um homem ser fotografado com um dos livros em suas mãos, geralmente, na melhor das hipóteses, este foi escolhido aleatoriamente, e, na pior, ele está fazendo pose para impressionar. Mas, em certo sentido especial, posso realmente testemunhar que um livro fez diferença em toda a minha existência, que me ajudou a ver as coisas duma certa maneira desde o princípio; uma visão das coisas que mesmo uma real revolução, como uma conversão de confissão religiosa, substancialmente apenas coroou e confirmou. De todas as histórias que li, incluindo até todos os romances do mesmo autor, esta continua sendo a mais real, mais realista, no exato sentido da frase – mais parecida com a vida. Ela se chama “A princesa e o Goblin”, e seu autor é George MacDonald, o homem de que trata este livro.</p>
<p>Quando digo que é semelhante à vida, o que quero dizer é o seguinte: ele descreve uma princesinha que mora num castelo nas montanhas que é perpetuamente escavado, por assim dizer, por demônios subterrâneos que às vezes vêm à superfície através da adega. Ela sobe as escadas do castelo até o quarto da governanta ou aos outros quartos; agora, no entanto, e mais uma vez, as escadas não levam para o destino usual, mas a um novo quarto que ela nunca tinha visto antes e que em geral não pode encontrar de novo. Aqui uma boa Tetravó, que é um tipo de fada madrinha, está perpetuamente fiando e falando palavras de sabedoria e incentivo. Quando eu li como criança, senti que a coisa toda era um acontecimento dentro de uma casa humana real, não essencialmente diferente da casa em que eu mesmo vivia e que também tinha escadas, e quartos e adega. Era aí que o conto de fadas diferia de muitos outros contos; acima de tudo, era aí que a filosofia diferia de muitas outras filosofias. Sempre senti certa insuficiência no ideal de Progresso, mesmo da melhor espécie, que é o progresso do Peregrino. Dificilmente este sugere quão próximo a nós estão as melhores e as piores coisas desde o princípio; especialmente talvez mesmo no princípio. E embora, como toda pessoa sensata, eu valorize e respeite o conto de fadas ordinário do terceiro filho do moleiro que partiu para procurar sua sorte (uma forma que o próprio MacDonald seguiu na continuação chamada “A princesa e Curdie”), a sugestão de viajar para um mundo das fadas, distante, que é a alma dele, impede de atingir este fim particular que é tornar todas as escadas, portas e janelas ordinárias coisas mágicas.</p>
<p>Dr. Greville MacDonald, nestas memórias interessantíssimas de seu pai, penso, menciona em algum lugar o sentido deste estranho simbolismo das escadas. Outra imagem recorrente em seus romances é a de um grande cavalo branco; o pai da princesa tinha um, e havia outro em The Back of the North Wind [Por trás do vento norte]. Até este dia, não posso ver um grande cavalo branco na rua sem uma repentina sensação de coisas indescritíveis. Mas, por ora, estou falando do que pode enfaticamente ser chamado a presença de deuses domésticos – e goblins domésticos. E a imagem da vida nesta parábola não é somente mais verdadeira que a imagem de uma viagem, como a do Peregrino; é sempre mais verdadeira do que a mera imagem de um sítio como o da Guerra Santa. Há algo não somente imaginativo, mas intimamente verdadeiro a respeito da ideia de goblins que estão debaixo da casa e são capazes de importuná-la a partir da adega. Quando as coisas más que nos importunam de fato aparecem, elas não aparecem do lado de fora, mas de dentro. De alguma maneira, aquela simples imagem de uma casa que é o nosso lar, que é sinceramente amada como nosso lar, mas da qual dificilmente conhecemos o melhor ou o pior, e deve sempre esperar por um deles e observá-lo contra o outro, sempre permaneceu em minha cabeça como algo singularmente sólido e irrefutável; e era ainda mais corroborado do que corrigido quando vim a dar um nome definitivo para a senhora que zela por nós desde a torre, e talvez a assumir uma visão mais prática dos goblins debaixo do piso. Desde que li pela primeira vez aquela história, cinco filosofias alternativas do universo chegaram às nossas faculdades, vindas da Alemanha, soprando o mundo como o vento leste. Mas, para mim, aquele castelo ainda permanece nas montanhas e a luz em sua torre não se extingue.</p>
<p>Todas as demais histórias de George MacDonald, interessantes e sugestivas de diversas maneiras, parecem ser ilustrações e mesmo disfarces daquele único disfarce, pois esta é a mais importante diferença entre o seu tipo de mistério e a mera alegoria. A alegoria comum assume seu objeto como lugares-comuns ou convenções necessárias para homens e mulheres comuns, e tenta torná-los agradáveis ou pitorescos, vestindo-os como princesas, ou goblins ou fadas. Mas George MacDonald, na verdade, acreditava que as pessoas eram princesas e goblins e fadas, e os vestia como homens ou mulheres comuns. O conto de fadas está dentro da história comum, não fora. Um resultado disso é que todos os objetos inanimados que são as propriedades do cenário da história retêm aquele glamour ignorado que têm num conto de fadas literal. A escadaria em “Robert Falconer” é tão mágica como a escadaria em “A princesa e o Goblin”; e quando os meninos estão construindo o barco e a menina está recitando versos para eles, em “Alec Forbes”, e alguns velhos cavalheiros dizem galhofeiramente que se erguerá para cantar como um navio mágico escandinavo, sempre me parece como se ele estivesse descrevendo a realidade, sem levar em conta a aparência, do incidente. Os romances enquanto romances são irregulares; mas como contos-de-fadas são extraordinariamente coerentes. Ele nunca, nem por um momento, perde seu fio interior que corre através da colcha de retalhos, e é o fio que a Tetravó põe nas mãos de Curdie para tirá-lo das armadilhas dos goblins.</p>
<p>A originalidade de George MacDonald tem também uma significância histórica, que talvez seja mais bem estimada ao compará-lo com seu grande conterrâneo Carlyle. É uma medida do real poder e mesmo da popularidade do Puritanismo na escócia que Carlyle nunca tenha perdido o humor Puritano, mesmo quando ele perdeu toda a teologia puritana. Se uma fuga do viés do ambiente for um teste de originalidade, Carlyle nunca escapou completamente, mas George Macdonald, sim. Ele desenvolveu, a partir de suas próprias meditações místicas, uma teologia alternativa completa que levava a um humor completamente oposto. E nessas meditações místicas ele aprendeu segredos muito além da mera extensão da indignação Puritana com a ética e a política. Pois no gênio real de Carlyle havia um toque de intimidação, e onde quer que haja um elemento de intimidação há um elemento de trivialidade, de reiteração e de ordens repetidas. Carlyle nunca pôde dizer nada tão sutil e simples como a frase de MacDonald de que Deus é fácil de agradar e difícil de satisfazer. Carlyle estava demasiadamente obviamente ocupado com a insistência em que Deus era difícil de satisfazer; exatamente como alguns otimistas estão, sem dúvida, ocupados em insistir que Ele é fácil de agradar. Em outras palavras, MacDonald tinha criado para si mesmo um tipo de ambiente espiritual, um espaço e transparência de luz mística, que era absolutamente excepcional em seu ambiente nacional e denominacional. Ele disse coisas semelhantes aos ditos dos cavaleiros místicos, dos santos católicos, algumas vezes dos platônicos ou swedenborgianos, mas não pelo menos aos dos calvinistas, mesmo quando o calvinismo permanecia em um homem como Carlyle. E quando ele vier a ser mais cuidadosamente estudado como um místico, como eu acho que ele será quando as pessoas descobrirem a possibilidade de recolher suas joias dispersas em um conjunto muito irregular, perceber-se-á, imagino, que ele se posta antes como um ponto de mutação na história do cristianismo, como um representante da nação cristã da Escócia. Como os protestantes falam da estrela da manhã da Reforma, devemos estar autorizados a notar tais nomes aqui e ali como estrelas da Reunião.</p>
<p>A coloração espiritual da Escócia, como a cor local de tantos sarracenos escoceses, é um roxo que sob algumas luzes pode parecer cinza. A característica nacional é na realidade intensamente romântica e apaixonada; na verdade, excessiva e perigosamente romântica e apaixonada. Sua torrente emocional tem apenas muito frequentemente se dirigido para a vingança, ou luxúria, ou crueldade ou bruxaria. Não há embriaguês como a embriaguês escocesa; ela tem em si o barulho antigo e a estridência selvagem dos Mênades das montanhas. E, claro, é igualmente verdade quanto ao lado bom, como na grande literatura da nação. Stopford Brooke e outros críticos apontaram com razão que um senso vívido de cores aparece nos poetas escoceses medievais antes deste aparecer de fato entre qualquer poeta inglês. E é absurdo falar da dura e perspicaz sobriedade do tipo nacional que se tem feito mais bem conhecido por toda parte no mundo moderno pelo literalismo prosaico do “Tesouro da ilha” e o realismo monótono de “Peter Pan”. No entanto, por um estranho acidente histórico, este povo vívido e colorido foi forçado a vestir-se de preto numa espécie de funeral sem fim num eterno Sabá. Na maioria das peças e quadros, entretanto, em que eles são representados quando vestidos de preto, alguns instintos fazem o ator ou o artista verem que eles não combinam muito bem. E assim o fazem.</p>
<p>Os escoceses apaixonados e poéticos – como os italianos apaixonados e poéticos –devem, obviamente, ter tido uma religião que competia com a beleza e vivacidade das paixões, que não deixava o diabo ter todas as cores brilhantes, que respondia glória com glória e fogo com fogo. Isso teria equilibrado Leonardo com São Francisco; nenhum jovem ou pessoa viva realmente pensa que isso pode ser equilibrado com John Knox. A consequência foi que este poder nas letras escocesas, especialmente no dia (ou noite) da plena ortodoxia calvinista, foi enfraquecida e desperdiçada centenas de vezes. Em Burns ela foi levada para fora de seu curso como loucura; em Scott, somente era tolerada como memória. Scott somente podia ser um medievalista tornando-se o que ele chamaria um antiquário, ou o que chamaríamos um esteta. Ele tinha de fingir que seu amor estava morto para que pudesse ser autorizado a amá-la. Assim como Nicodemos foi até Jesus à noite (ver Jo 3:1), o esteta somente vai à igreja à noite.</p>
<p>Agora, entre os muitos homens de gênio que a Escócia produziu no século XIX, havia apenas um tão original para voltar a sua origem. Havia apenas um que realmente representava o que a religião escocesa deveria ter sido, se tivesse mantido a coloração da poesia escocesa medieval. Em seu tipo particular de obra literária, ele de fato percebeu o aparente paradoxo de São Francisco de Aberdeen, vendo o mesmo tipo de halo em torno de uma flor e de um pássaro. Não é a mesma coisa que a apreciação da beleza da flor ou do pássaro. Um bruto pode sentir isso e continuar bruto, ou, em outras palavras, continuar triste. É um certo senso especial de significância, que a tradição que mais a valoriza chama sacramental. Ter voltado para isso, ou avançado para isso, num salto de meninice, para fora do negro Sabá de uma cidade calvinista, foi um milagre de imaginação.</p>
<p>Ao notar que ele bem pode ter este lugar na história, no sentido da religião e da história nacional, eu não tento aqui fixar seu lugar na literatura. Em todo caso, ele é um dos tipos que é mais difícil de classificar. Ele não escreveu nada vazio; mas ele escreveu muito que é tão cheio e cuja apreciação depende antes de uma simpatia com a substância do que à primeira vista com a forma. De fato, os místicos não são com frequência homens de letras em seu sentido perfeito e quase profissional. Um homem cuidadoso encontrará mais sobre o que pensar em Vaughan ou Crashaw do que em Milton, mas ele também encontrará muito a criticar; e ninguém precisa negar que, no sentido ordinário, um leitor casual pode desejar que haja menos de Blake e mais de Keats. Mas mesmo essa permissão não deve ser exagerada; e é exatamente no mesmo sentido em que nos compadecemos de um homem que perdeu tudo de Keats ou de Milton, que podemos sentir compaixão pelo crítico que não caminhou na floresta de Phantastes ou não tomou conhecimento do Sr. Cupples nas aventuras de Alec Forbes.</p>
<p>Introdução de Chesterton ao livro “George Macdonald and His Wife”, de Greville M.</p>
<p>MacDonald, 1924.)</p>
<p>Certas revistas têm simpósios (eu os chamaria simposia, se me fosse permitido chamar</p>
<p>duas coleções do South Kensington de “musea”) em que se pergunta às pessoas o nome</p>
<p>de “livros que as influenciaram”, na mesma linha de “Hinos que as ajudaram”. Não é</p>
<p>um processo realista, como regra, pois nossas mentes são, na maioria das vezes, uma</p>
<p>biblioteca não catalogada; e, para um homem ser fotografado com um dos livros em</p>
<p>suas mãos, geralmente, na melhor das hipóteses, este foi escolhido aleatoriamente,</p>
<p>e, na pior, ele está fazendo pose para impressionar. Mas, em certo sentido especial,</p>
<p>posso realmente testemunhar que um livro fez diferença em toda a minha existência,</p>
<p>que me ajudou a ver as coisas duma certa maneira desde o princípio; uma visão das</p>
<p>coisas que mesmo uma real revolução, como uma conversão de confissão religiosa,</p>
<p>substancialmente apenas coroou e confirmou. De todas as histórias que li, incluindo</p>
<p>até todos os romances do mesmo autor, esta continua sendo a mais real, mais realista,</p>
<p>no exato sentido da frase – mais parecida com a vida. Ela se chama “A princesa e o</p>
<p>Goblin”, e seu autor é George MacDonald, o homem de que trata este livro.</p>
<p>Quando digo que é semelhante à vida, o que quero dizer é o seguinte: ele descreve uma</p>
<p>princesinha que mora num castelo nas montanhas que é perpetuamente escavado, por</p>
<p>assim dizer, por demônios subterrâneos que às vezes vêm à superfície através da adega.</p>
<p>Ela sobe as escadas do castelo até o quarto da governanta ou aos outros quartos; agora,</p>
<p>no entanto, e mais uma vez, as escadas não levam para o destino usual, mas a um novo</p>
<p>quarto que ela nunca tinha visto antes e que em geral não pode encontrar de novo. Aqui</p>
<p>uma boa Tetravó, que é um tipo de fada madrinha, está perpetuamente fiando e falando</p>
<p>palavras de sabedoria e incentivo. Quando eu li como criança, senti que a coisa toda</p>
<p>era um acontecimento dentro de uma casa humana real, não essencialmente diferente</p>
<p>da casa em que eu mesmo vivia e que também tinha escadas, e quartos e adega. Era</p>
<p>aí que o conto de fadas diferia de muitos outros contos; acima de tudo, era aí que a</p>
<p>filosofia diferia de muitas outras filosofias. Sempre senti certa insuficiência no ideal</p>
<p>de Progresso, mesmo da melhor espécie, que é o progresso do Peregrino. Dificilmente</p>
<p>este sugere quão próximo a nós estão as melhores e as piores coisas desde o princípio;</p>
<p>especialmente talvez mesmo no princípio. E embora, como toda pessoa sensata, eu</p>
<p>valorize e respeite o conto de fadas ordinário do terceiro filho do moleiro que partiu</p>
<p>para procurar sua sorte (uma forma que o próprio MacDonald seguiu na continuação</p>
<p>chamada “A princesa e Curdie”), a sugestão de viajar para um mundo das fadas,</p>
<p>distante, que é a alma dele, impede de atingir este fim particular que é tornar todas as</p>
<p>escadas, portas e janelas ordinárias coisas mágicas.</p>
<p>Dr. Greville MacDonald, nestas memórias interessantíssimas de seu pai, penso,</p>
<p>menciona em algum lugar o sentido deste estranho simbolismo das escadas. Outra</p>
<p>imagem recorrente em seus romances é a de um grande cavalo branco; o pai da princesa</p>
<p>tinha um, e havia outro em The Back of the North Wind [Por trás do vento norte]. Até</p>
<p>este dia, não posso ver um grande cavalo branco na rua sem uma repentina sensação de</p>
<p>coisas indescritíveis. Mas, por ora, estou falando do que pode enfaticamente ser</p>
<p>chamado a presença de deuses domésticos – e goblins domésticos. E a imagem da vida</p>
<p>nesta parábola não é somente mais verdadeira que a imagem de uma viagem, como a do</p>
<p>Peregrino; é sempre mais verdadeira do que a mera imagem de um sítio como o da</p>
<p>Guerra Santa. Há algo não somente imaginativo, mas intimamente verdadeiro a</p>
<p>respeito da ideia de goblins que estão debaixo da casa e são capazes de importuná-la a</p>
<p>partir da adega. Quando as coisas más que nos importunam de fato aparecem, elas não</p>
<p>aparecem do lado de fora, mas de dentro. De alguma maneira, aquela simples imagem</p>
<p>de uma casa que é o nosso lar, que é sinceramente amada como nosso lar, mas da qual</p>
<p>dificilmente conhecemos o melhor ou o pior, e deve sempre esperar por um deles e</p>
<p>observá-lo contra o outro, sempre permaneceu em minha cabeça como algo</p>
<p>singularmente sólido e irrefutável; e era ainda mais corroborado do que corrigido</p>
<p>quando vim a dar um nome definitivo para a senhora que zela por nós desde a torre, e</p>
<p>talvez a assumir uma visão mais prática dos goblins debaixo do piso. Desde que li pela</p>
<p>primeira vez aquela história, cinco filosofias alternativas do universo chegaram às</p>
<p>nossas faculdades, vindas da Alemanha, soprando o mundo como o vento leste. Mas,</p>
<p>para mim, aquele castelo ainda permanece nas montanhas e a luz em sua torre não se</p>
<p>extingue.</p>
<p>Todas as demais histórias de George MacDonald, interessantes e sugestivas de diversas</p>
<p>maneiras, parecem ser ilustrações e mesmo disfarces daquele único disfarce, pois esta</p>
<p>é a mais importante diferença entre o seu tipo de mistério e a mera alegoria. A alegoria</p>
<p>comum assume seu objeto como lugares-comuns ou convenções necessárias para</p>
<p>homens e mulheres comuns, e tenta torná-los agradáveis ou pitorescos, vestindo-os</p>
<p>como princesas, ou goblins ou fadas. Mas George MacDonald, na verdade, acreditava</p>
<p>que as pessoas eram princesas e goblins e fadas, e os vestia como homens ou mulheres</p>
<p>comuns. O conto de fadas está dentro da história comum, não fora. Um resultado disso</p>
<p>é que todos os objetos inanimados que são as propriedades do cenário da história retêm</p>
<p>aquele glamour ignorado que têm num conto de fadas literal. A escadaria em “Robert</p>
<p>Falconer” é tão mágica como a escadaria em “A princesa e o Goblin”; e quando os</p>
<p>meninos estão construindo o barco e a menina está recitando versos para eles, em “Alec</p>
<p>Forbes”, e alguns velhos cavalheiros dizem galhofeiramente que se erguerá para</p>
<p>cantar como um navio mágico escandinavo, sempre me parece como se ele estivesse</p>
<p>descrevendo a realidade, sem levar em conta a aparência, do incidente. Os romances</p>
<p>enquanto romances são irregulares; mas como contos-de-fadas são extraordinariamente</p>
<p>coerentes. Ele nunca, nem por um momento, perde seu fio interior que corre através</p>
<p>da colcha de retalhos, e é o fio que a Tetravó põe nas mãos de Curdie para tirá-lo das</p>
<p>armadilhas dos goblins.</p>
<p>A originalidade de George MacDonald tem também uma significância histórica, que</p>
<p>talvez seja mais bem estimada ao compará-lo com seu grande conterrâneo Carlyle. É</p>
<p>uma medida do real poder e mesmo da popularidade do Puritanismo na escócia que</p>
<p>Carlyle nunca tenha perdido o humor Puritano, mesmo quando ele perdeu toda a</p>
<p>teologia puritana. Se uma fuga do viés do ambiente for um teste de originalidade,</p>
<p>Carlyle nunca escapou completamente, mas George Macdonald, sim. Ele desenvolveu,</p>
<p>a partir de suas próprias meditações místicas, uma teologia alternativa completa que</p>
<p>levava a um humor completamente oposto. E nessas meditações místicas ele aprendeu</p>
<p>segredos muito além da mera extensão da indignação Puritana com a ética e a política.</p>
<p>Pois no gênio real de Carlyle havia um toque de intimidação, e onde quer que haja um</p>
<p>elemento de intimidação há um elemento de trivialidade, de reiteração e de ordens</p>
<p>repetidas. Carlyle nunca pôde dizer nada tão sutil e simples como a frase de MacDonald</p>
<p>de que Deus é fácil de agradar e difícil de satisfazer. Carlyle estava demasiadamente</p>
<p>obviamente ocupado com a insistência em que Deus era difícil de satisfazer; exatamente</p>
<p>como alguns otimistas estão, sem dúvida, ocupados em insistir que Ele é fácil de</p>
<p>agradar. Em outras palavras, MacDonald tinha criado para si mesmo um tipo de</p>
<p>ambiente espiritual, um espaço e transparência de luz mística, que era absolutamente</p>
<p>excepcional em seu ambiente nacional e denominacional. Ele disse coisas semelhantes</p>
<p>aos ditos dos cavaleiros místicos, dos santos católicos, algumas vezes dos platônicos ou</p>
<p>swedenborgianos, mas não pelo menos aos dos calvinistas, mesmo quando o calvinismo</p>
<p>permanecia em um homem como Carlyle. E quando ele vier a ser mais cuidadosamente</p>
<p>estudado como um místico, como eu acho que ele será quando as pessoas descobrirem a</p>
<p>possibilidade de recolher suas joias dispersas em um conjunto muito irregular, perceber-</p>
<p>se-á, imagino, que ele se posta antes como um ponto de mutação na história do</p>
<p>cristianismo, como um representante da nação cristã da Escócia. Como os protestantes</p>
<p>falam da estrela da manhã da Reforma, devemos estar autorizados a notar tais nomes</p>
<p>aqui e ali como estrelas da Reunião.</p>
<p>A coloração espiritual da Escócia, como a cor local de tantos sarracenos escoceses,</p>
<p>é um roxo que sob algumas luzes pode parecer cinza. A característica nacional é na</p>
<p>realidade intensamente romântica e apaixonada; na verdade, excessiva e perigosamente</p>
<p>romântica e apaixonada. Sua torrente emocional tem apenas muito frequentemente se</p>
<p>dirigido para a vingança, ou luxúria, ou crueldade ou bruxaria. Não há embriaguês como</p>
<p>a embriaguês escocesa; ela tem em si o barulho antigo e a estridência selvagem dos</p>
<p>Mênades das montanhas. E, claro, é igualmente verdade quanto ao lado bom, como na</p>
<p>grande literatura da nação. Stopford Brooke e outros críticos apontaram com razão que</p>
<p>um senso vívido de cores aparece nos poetas escoceses medievais antes deste aparecer</p>
<p>de fato entre qualquer poeta inglês. E é absurdo falar da dura e perspicaz sobriedade do</p>
<p>tipo nacional que se tem feito mais bem conhecido por toda parte no mundo moderno</p>
<p>pelo literalismo prosaico do “Tesouro da ilha” e o realismo monótono de “Peter Pan”.</p>
<p>No entanto, por um estranho acidente histórico, este povo vívido e colorido foi forçado</p>
<p>a vestir-se de preto numa espécie de funeral sem fim num eterno Sabá. Na maioria das</p>
<p>peças e quadros, entretanto, em que eles são representados quando vestidos de preto,</p>
<p>alguns instintos fazem o ator ou o artista verem que eles não combinam muito bem. E</p>
<p>assim o fazem.</p>
<p>Os escoceses apaixonados e poéticos – como os italianos apaixonados e poéticos –</p>
<p>devem, obviamente, ter tido uma religião que competia com a beleza e vivacidade das</p>
<p>paixões, que não deixava o diabo ter todas as cores brilhantes, que respondia glória com</p>
<p>glória e fogo com fogo. Isso teria equilibrado Leonardo com São Francisco; nenhum</p>
<p>jovem ou pessoa viva realmente pensa que isso pode ser equilibrado com John Knox. A</p>
<p>consequência foi que este poder nas letras escocesas, especialmente no dia (ou noite) da</p>
<p>plena ortodoxia calvinista, foi enfraquecida e desperdiçada centenas de vezes. Em Burns</p>
<p>ela foi levada para fora de seu curso como loucura; em Scott, somente era tolerada como</p>
<p>memória. Scott somente podia ser um medievalista tornando-se o que ele chamaria um</p>
<p>antiquário, ou o que chamaríamos um esteta. Ele tinha de fingir que seu amor estava</p>
<p>morto para que pudesse ser autorizado a amá-la. Assim como Nicodemos foi até Jesus à</p>
<p>noite (ver Jo 3:1), o esteta somente vai à igreja à noite.</p>
<p>Agora, entre os muitos homens de gênio que a Escócia produziu no século XIX, havia</p>
<p>apenas um tão original para voltar a sua origem. Havia apenas um que realmente</p>
<p>representava o que a religião escocesa deveria ter sido, se tivesse mantido a coloração</p>
<p>da poesia escocesa medieval. Em seu tipo particular de obra literária, ele de fato</p>
<p>percebeu o aparente paradoxo de São Francisco de Aberdeen, vendo o mesmo tipo de</p>
<p>halo em torno de uma flor e de um pássaro. Não é a mesma coisa que a apreciação da</p>
<p>beleza da flor ou do pássaro. Um bruto pode sentir isso e continuar bruto, ou, em outras</p>
<p>palavras, continuar triste. É um certo senso especial de significância, que a tradição que</p>
<p>mais a valoriza chama sacramental. Ter voltado para isso, ou avançado para isso, num</p>
<p>salto de meninice, para fora do negro Sabá de uma cidade calvinista, foi um milagre de</p>
<p>imaginação.</p>
<p>Ao notar que ele bem pode ter este lugar na história, no sentido da religião e da</p>
<p>história nacional, eu não tento aqui fixar seu lugar na literatura. Em todo caso, ele é</p>
<p>um dos tipos que é mais difícil de classificar. Ele não escreveu nada vazio; mas ele</p>
<p>escreveu muito que é tão cheio e cuja apreciação depende antes de uma simpatia com</p>
<p>a substância do que à primeira vista com a forma. De fato, os místicos não são com</p>
<p>frequência homens de letras em seu sentido perfeito e quase profissional. Um homem</p>
<p>cuidadoso encontrará mais sobre o que pensar em Vaughan ou Crashaw do que em</p>
<p>Milton, mas ele também encontrará muito a criticar; e ninguém precisa negar que, no</p>
<p>sentido ordinário, um leitor casual pode desejar que haja menos de Blake e mais de</p>
<p>Keats. Mas mesmo essa permissão não deve ser exagerada; e é exatamente no mesmo</p>
<p>sentido em que nos compadecemos de um homem que perdeu tudo de Keats ou de</p>
<p>Milton, que podemos sentir compaixão pelo crítico que não caminhou na floresta de</p>
<p>Phantastes ou não tomou conhecimento do Sr. Cupples nas aventuras de Alec Forbes.</p>
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		<item>
		<title>Enciclopédia de seres de Nárnia</title>
		<link>http://www.cslewis.com.br/2011/10/enciclopedia-de-seres-de-narnia/</link>
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		<pubDate>Sat, 01 Oct 2011 14:52:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos em inglês]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[Mitos]]></category>
		<category><![CDATA[Nárnia]]></category>

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		<description><![CDATA[Relação de seres mitológicos que aparecem nas Crônicas de Nárnia.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para visualizar a Enciclopédia de seres de Nárnia em inglês</p>
<p>Clique <a title="Enciclopédia de seres de Nárnia" href="http://encyclopedia.thefreedictionary.com/List+of+Narnian+creatures#E" target="_blank">aqui.</a></p>
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		<item>
		<title>As estórias de fadas na Cidade de Deus: teoria literária de J. R. R. Tolkien e as virtudes cardeais de santo Agostinho</title>
		<link>http://www.cslewis.com.br/2011/10/as-estorias-de-fadas-na-cidade-de-deus-teoria-literaria-de-j-r-r-tolkien-e-as-virtudes-cardeais-de-santo-agostinho/</link>
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		<pubDate>Sat, 01 Oct 2011 14:38:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
				<category><![CDATA[J.R.R.Tolkien]]></category>
		<category><![CDATA[Cidade de Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Contos de fadas]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[J.R.R. Tolkien]]></category>
		<category><![CDATA[literatura medieval]]></category>
		<category><![CDATA[santo Agostinho]]></category>
		<category><![CDATA[Virtude]]></category>

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		<description><![CDATA[Este artigo trata dos conceitos literários de J. R. R. Tolkien de estórias de fadas, fantasia,
subcriação e eucatástrofe. Através do poema Mythopoieia (1930), do ensaio Beowulf: The
Monsters and the Critics (1936) e do ensaio On Fairy-Stories (1939) podemos tecer uma teoria
literária que entende sua fi nalidade como uma expressão religiosa, buscando similitudes com
o pensamento de santo Agostinho, especifi camente nas quatro virtudes cardeais, expressas nos
livros A cidade de Deus (426) e O livre-arbítrio (388), assim como a gloria das nações pagãs e
a presença de virtudes que justifi cassem elementos da verdade em povo pagãos. Assim como
antigas virtudes romanas poderiam ser exemplos para os cristãos, também nos mitos escandinavos,
como Beowulf, poderiam ser encontradas virtudes pertinentes à revelação cristã. Por fi m,
também as estórias de fadas, subcriadas, podem e devem ecoar elementos do Evangelho cristão.
Palavras-chave: Literatura, cristianismo, virtudes.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>﻿Para ler o artigo de <strong>Diego Klautau </strong>inteiro</p>
<p>clique<a href="http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/downloads/2010/12/Art03Osdoisolhos.pdf"> </a><a href="http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/2009/06/02asestoriasdefadas.pdf">aqui</a>:</p>
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		<item>
		<title>Os dois olhos do dragão: uma análise de Beowulf a partir de Tolkien e Borges</title>
		<link>http://www.cslewis.com.br/2011/10/os-dois-olhos-do-dragao-uma-analise-de-beowulf-a-partir-de-tolkien-e-borges/</link>
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		<pubDate>Sat, 01 Oct 2011 14:35:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
				<category><![CDATA[J.R.R.Tolkien]]></category>
		<category><![CDATA[Be]]></category>
		<category><![CDATA[Borges]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[J.R.R. Tolkien]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vritudes]]></category>

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		<description><![CDATA[Este artigo trata dos conceitos literários de J. R. R. Tolkien de estórias de fadas, fantasia,
subcriação e eucatástrofe. Através do poema Mythopoieia (1930), do ensaio Beowulf: The
Monsters and the Critics (1936) e do ensaio On Fairy-Stories (1939) podemos tecer uma teoria
literária que entende sua fi nalidade como uma expressão religiosa, buscando similitudes com
o pensamento de santo Agostinho, especifi camente nas quatro virtudes cardeais, expressas nos
livros A cidade de Deus (426) e O livre-arbítrio (388), assim como a gloria das nações pagãs e
a presença de virtudes que justifi cassem elementos da verdade em povo pagãos. Assim como
antigas virtudes romanas poderiam ser exemplos para os cristãos, também nos mitos escandinavos,
como Beowulf, poderiam ser encontradas virtudes pertinentes à revelação cristã. Por fi m,
também as estórias de fadas, subcriadas, podem e devem ecoar elementos do Evangelho cristão.
Palavras-chave: Literatura, cristianismo, virtudes.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>﻿Para ler o artigo de <strong>Diego Klautau </strong>inteiro</p>
<p>clique<a href="http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/downloads/2010/12/Art03Osdoisolhos.pdf"> aqui</a>:</p>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow: hidden;">Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 10<br />
As estórias de fadas na Cidade de Deus:<br />
teoria literária de J. R. R. Tolkien e as<br />
virtudes cardeais de santo Agostinho<br />
Diego Klautau*<br />
Resumo: Este artigo trata dos conceitos literários de J. R. R. Tolkien de estórias de fadas, fantasia,<br />
subcriação e eucatástrofe. Através do poema Mythopoieia (1930), do ensaio Beowulf: The<br />
Monsters and the Critics (1936) e do ensaio On Fairy-Stories (1939) podemos tecer uma teoria<br />
literária que entende sua fi nalidade como uma expressão religiosa, buscando similitudes com<br />
o pensamento de santo Agostinho, especifi camente nas quatro virtudes cardeais, expressas nos<br />
livros A cidade de Deus (426) e O livre-arbítrio (388), assim como a gloria das nações pagãs e<br />
a presença de virtudes que justifi cassem elementos da verdade em povo pagãos. Assim como<br />
antigas virtudes romanas poderiam ser exemplos para os cristãos, também nos mitos escandinavos,<br />
como Beowulf, poderiam ser encontradas virtudes pertinentes à revelação cristã. Por fi m,<br />
também as estórias de fadas, subcriadas, podem e devem ecoar elementos do Evangelho cristão.<br />
Palavras-chave: Literatura, cristianismo, virtudes.<br />
But even as hope died in Sam, or seemed to die, it was<br />
turned to a new strength. Sam´s plain hobbit-face grew<br />
stern, almost grim, as the will hardened in him, and he<br />
felt through all his limbs a thrill, as if he was turning into<br />
some creature of stone and steel that neither despair nor<br />
weariness nor endless barren miles could subdue<br />
(Tolkien, 2005, p. 934).1<br />
Tolkien e sua teoria literária<br />
A partir da experiência dos folcloristas da Inglaterra,<br />
como Georges MacDonald2 e Andrew Lang,3 J.<br />
R. R. Tolkien4 produziu seu legendarium,5 um ciclo<br />
de escritos sobre o universo da Terra-média, onde desenvolveu<br />
toda uma realidade fantástica, com seres<br />
inteligentes e mágicos, criaturas horrendas e angelicais,<br />
semideuses e demônios. Através de uma criação<br />
literária que se estendeu por vários livros, poemas e<br />
contos, Tolkien propôs uma concepção de literatura<br />
fantástica que retomou perspectivas em ambientes<br />
pré-modernos de narrativa, fundamentalmente as<br />
narrações mitológicas gregas, romanas e escandinavas,<br />
os poemas épicos e as narrativas bíblicas.<br />
Entre os diversos livros do legendarium estão, entre<br />
os publicados em vida ou postumamente, O hobbit<br />
(1937), as três partes de O senhor dos anéis (1954-<br />
1955), As aventuras de Tom Bombadill (1934), O<br />
silmarillion (1977), Outros versos do Livro Vermelho<br />
(1962), A última canção de Bilbo (1974), Os contos<br />
inacabados (1980) e os doze volumes da História da<br />
Terra-média (1983-1996).<br />
Entre as diversas publicações acadêmicas, especialmente<br />
sua análise de Beowulf,6 com a conferência<br />
em Oxford Beowulf, The Monsters and the Critics<br />
(1936), trabalho de maior consistência acadêmica,<br />
fi lológica e literária, Tolkien, sempre expressou a necessidade<br />
de entender as lendas e mitos7 como elementos<br />
importantes da linguagem e da religião. Seu<br />
famoso poema Mythopoieia (1930), publicado no<br />
livro Tree and Leaf (1964), refl ete a discussão entre<br />
Phylomythus (o que ama mitos) e o Mysomythus (o<br />
que odeia mitos). Essa discussão seria uma repercussão<br />
dos diálogos entre Tolkien, cristão convicto, e seu<br />
colega professor de Oxford C. S. Lewis,8 na época extremamente<br />
materialista. O poema teria os conteúdos<br />
debatidos entre os professores.<br />
Blessed are the legends-makers with their rhyme<br />
of things not found within recorded time.<br />
It is not they that have forgot the Night,<br />
or bid us flee to organized delight,<br />
in lotus-isles of economic bliss<br />
forswering souls to gain a Circe-kiss<br />
(and counterfeit at that, machine-produced,<br />
bogus seduction of the twice-seduced).9<br />
(Lopes, 2006, p. 157)<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 11<br />
A referência do mundo como além do que se vê, do<br />
pensamento mitológico grego, no caso expresso pela<br />
relação entre Circe e as ilhas de Lótus em Homero,10<br />
na Odisséia, e também da tradição platônica,11 como<br />
no mito da caverna da República, e também do pensamento<br />
cristão da transcendência, recusa o materialismo<br />
fundado na busca do lucro e da produção industrial,<br />
e das máquinas, como desenvolvimento absoluto.<br />
Essa crítica12 de Tolkien ao que ele considerava<br />
uma alienação e um desvio do verdadeiro propósito<br />
do saber indica sua tradição religiosa. Nesse sentido,<br />
esse trecho do poema refl ete sua preocupação com<br />
os poetas como investigadores para além do mundo<br />
material. Sua valorização da mitologia, das lendas e<br />
dos poetas que as realizavam indica a recusa do tempo<br />
em que vivia — entre guerras mundiais —, e da industrialização,<br />
que ameaçava constantemente destruir<br />
o mundo rural no qual o próprio Tolkien crescera.13<br />
De fato, a religião, em Tolkien, sempre foi importante.<br />
A refl exão sobre a verdade religiosa está presente<br />
na produção de seu legendarium e também em<br />
seus escrito teóricos. A própria pesquisa do poema<br />
medieval Beowulf se encaminha para essa relação<br />
entre a tradição cristã, entendida como verdade de<br />
fé, revelada e acolhida, e as produções pagãs da mitologia<br />
e das lendas, que exaltavam virtudes e valores<br />
de uma determinada cultura, no caso de Beowulf, escandinava.<br />
O ensaio mais importante nessa área é On Fairy-<br />
Stories (1939), uma palestra conferida na Universit of<br />
St Andrews, na Escócia, em 8 de março de 1939. Esse<br />
ensaio é considerado o mais extenso e abrangente de<br />
Tolkien, no qual o autor demonstra toda a sua visão<br />
sobre trabalhos de folcloristas, mitólogos e fi lólogos.<br />
Nesse ensaio Tolkien busca apresentar conceitos<br />
fundamentais em sua teoria literária. Valorizando as<br />
lendas, narrativas e mitologias, o escritor apresenta<br />
uma visão nova, entendida como não-analítica dessas<br />
produções, mas como um incentivo e uma apologia<br />
a essa literatura, como estímulo para ler e escrever.<br />
Não apenas uma apresentação acadêmica, mas um<br />
admirador e atuante do ofício de escritor.<br />
O primeiro conceito importante apresentado é o<br />
próprio título da palestra. As estórias de fadas, fairy<br />
stories, são objeto de refl exão de Tolkien. Em inglês,<br />
fairy stories são diferentes dos fairy tales, os contos de<br />
fadas. A tradução do conceito adotada é de Reinaldo<br />
Lopes,14 em sua dissertação de mestrado A árvore das<br />
estórias: uma proposta de tradução para “Tree and<br />
Leaf”, de J. R. R. Tolkien (2006). Nesse estudo, Lopes<br />
traduz On-Fairy-Stories e Mythopoieia nos moldes em<br />
que trabalhamos. Após tal defi nição de fairy-stories,<br />
Tolkien desenvolve seu ensaio para responder a três<br />
perguntas: que são estórias de fadas? Qual sua origem?<br />
Para que servem?<br />
Essa tradução é proposital no pensamento de<br />
Tolkien. Ao fazer a diferença entre history, stories e<br />
tales, Tolkien quer, de fato, marcar a diferença entre<br />
história, estórias e contos:<br />
• História é a realidade em que vivemos, no mundo<br />
onde acontecem os fatos que estamos acostumados<br />
a ver. É o lugar onde acontecem os dramas<br />
puramente cotidianos, humanos e naturais.<br />
• Estórias seriam as narrativas que demonstram que<br />
o ser humano não defi ne o real. Existem outras<br />
dimensões do pensamento e da realidade. São<br />
as lendas, os mitos e as narrativas que demonstram<br />
que a humanidade sempre esteve ligada a<br />
um mundo que é misterioso, transcendente ao<br />
humano e sobrenatural.<br />
• Contos são aquelas narrativas que são usadas<br />
como fábulas, sem nenhuma pretensão de expor<br />
e investigar nada. Esses, sim, são os contos infantis<br />
e de puro entretenimento.<br />
Essa primeira defi nição de Tolkien, ao fazer a diferença<br />
entre estórias de fadas e contos de fadas, marca<br />
seu objeto. Os contos de fadas são as narrativas com<br />
fadas diminutas, que normalmente são consideradas<br />
ingênuas e graciosas. As estórias de fadas são sobre<br />
um lugar, o Reino Encantado, ou Feéria, onde seres<br />
humanos adentram e vivem experiências literárias<br />
próprias. As aventuras dos seres humanos em Feéria<br />
é que são as estórias de fadas. As estórias de fadas<br />
sempre tratam de seres humanos em relação consigo<br />
mesmo, com a natureza e com o mistério transcendente.<br />
Estes são os desejos saciados em Feéria: a observação<br />
das profundezas do tempo e do espaço. A<br />
outra é a comunhão com todas as coisas vivas.<br />
As estórias de fadas trazem a refl exão de Feéria, em<br />
seus níveis de questionamento e de aprofundamento,<br />
que tragam a experiência humana em direção ao desconhecido<br />
e imprevisível. Segundo o próprio Tolkien,<br />
a natureza de Feéria é indescritível, porém não é imperceptível,<br />
e nenhuma análise do tipo cartesiano15<br />
poderá desvelar seus segredos. Logo, as estórias de<br />
fadas possuem uma tradição própria, que remontam a<br />
pessoas, lugares e criaturas que podem ser encontradas<br />
em diversos tempos e lugares. Os elementos das<br />
estórias de fadas estariam misturados no grande Caldeirão<br />
de Estórias, onde os poetas e escritores fariam<br />
suas sopas, as narrativas que são construídas durante<br />
o tempo e o espaço. Os anéis de poder, os corações<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 12<br />
escondidos, o cetro, a estrela, o cristal, a espada, o<br />
dragão, o cavaleiro, o mago, os monstros. São todos<br />
elementos constitutivos das estórias de fadas.<br />
É justamente nesse ponto que Tolkien responde à<br />
sua segunda pergunta: qual a origem das estórias de<br />
fadas? Fazendo uma comparação com a fi lologia,16<br />
existem três metodologias de pesquisa em relação aos<br />
elementos que compõem as estórias de fadas, seja<br />
através da evolução independente, seja da difusão,<br />
seja da herança. Para Tolkien, o elemento mais difícil<br />
de abordar é a evolução independente, pois trata da<br />
invenção. A busca pela difusão, propagação no espaço,<br />
ou da herança, propagação no tempo, apenas<br />
deslocam a questão da origem para um debate mais<br />
complexo e com mais elementos.<br />
Assim, Tolkien afi rma a incapacidade do método<br />
científi co analítico para desvendar as origens de Feéria,<br />
chegando, no máximo, a dissecar seus elementos<br />
e fazer certa arqueologia dos personagens, objetos e<br />
lugares comuns às estórias de fadas.<br />
Porém, embora pesquisando os ossos, legumes e<br />
demais ingredientes de uma sopa, o que mais importa<br />
é como ela é servida e se realmente é saborosa e nutritiva.<br />
Daí a preocupação de Tolkien com as funções e<br />
utilidades das estórias de fadas. Ao dialogar com Max<br />
Müller,17 discorda de que a mitologia seja uma doença<br />
da linguagem, ao contrário: é integrante essencial<br />
da experiência humana de comunicar. Seria o mesmo<br />
que considerar o pensamento uma doença da mente.<br />
Fundamentalmente, as origens das estórias de fadas<br />
estão associadas ao pensamento mitológico e religioso.<br />
Ao mesmo tempo, o ser humano inicia sua<br />
refl exão sobre o mundo a sua volta e reconhece sua<br />
própria condição, questiona a validade de sua vida,<br />
enquanto investiga o mundo que transcende ao que<br />
vê e a ele mesmo, encaminhando-se em direção ao<br />
profundo mistério que reconhece e não consegue explicar.<br />
Tolkien, em On Fairy-Stories, afi rma que:<br />
Yet these things have in fact become entangled or maybe<br />
they were sundered long ago and have since groped<br />
slowly, through a labyrinth of error, though confusion,<br />
back towards re-fusion. Even fairy-stories as a whole<br />
have three faces: the Mystical towards the Supernatural;<br />
the Magical towards Nature; and the mirror of scorn and<br />
pity towards the Man. The essential face of Faerie is the<br />
middle one, the Magical. But the degree in which the<br />
others appear (if at all) is variable, and may be decided<br />
by the individual story-teller (Tolkien, 1997, p. 125).18<br />
Para Tolkien, as estórias de fadas são essencialmente<br />
sobre a Natureza. Isso corrobora a idéia da<br />
preocupação de Tolkien com a condição moderna e<br />
com a exploração da natureza pela ciência e pelo<br />
capital. A resistência das estórias de fadas em relação<br />
ao materialismo se expressa pelo cuidado com a<br />
Natureza. Daí a refl exão do mito como elemento da<br />
natureza: o Trovão é Thor, mas também é o ferreiro<br />
mal-humorado, fi gura típica dos escandinavos.<br />
Também as estórias de fadas têm seus elementos<br />
de refl exão sobre o ser humano, enquanto condição<br />
e destino, e sobre o mistério, centro da religião. Tanto<br />
o ser humano quanto a mística podem estar presentes<br />
nas estórias de fadas, porém seu fundamento é a mágica,<br />
a representação e reconhecimento da Natureza.<br />
Chegamos, agora, à terceira pergunta de Tolkien.<br />
A utilidade das estórias de fadas é justamente a de<br />
proporcionar um novo olhar para o mundo. Essas<br />
estórias, por tratarem de um lugar, de um encontro<br />
entre os seres humanos e algo que está além deles,<br />
porém presentes em seu desejo, é um lugar de novidade,<br />
de assombro e de surpresa. É o espaço em que<br />
o mistério se apresenta com novas imagens, em que<br />
os dramas humanos são re-visitados e re-atualizados<br />
e reconhecidos. Eis Feéria, que novamente se re-encanta19<br />
com o cotidiano da natureza.<br />
Esse novo olhar promovido pelas estórias de fadas<br />
em relação à natureza é o fundamento de sua<br />
existência. O que preserva as estórias de fadas são<br />
suas virtudes e valores, presentes em si e espalhadas<br />
e difundidas em todos os que se aventuram em Feéria.<br />
Daí a associação das estórias de fadas com as<br />
crianças. Embora Tolkien discorde dessa associação<br />
imediata, diz que o fundamento de tal associação é a<br />
capacidade de as crianças acreditarem em coisas novas.<br />
Que existe também nos adultos, porém de uma<br />
forma mais prejudicada, principalmente nos domínios<br />
das máquinas e do materialismo.<br />
Essa capacidade de crença está expressa porque<br />
as estórias de fadas não estão preocupadas com a<br />
possibilidade — daí o irreal, o sobrenatural e o sobre-<br />
humano — , mas sim com a desejabilidade de<br />
coisas esplêndidas e transcendentes. Também essas<br />
virtudes presentes nessas coisas esplêndidas são trazidas<br />
pelas estórias de fadas através da fantasia, que<br />
é a capacidade imaginativa de formar imagens mentais<br />
que não estão presentes: o escape, transporte fora<br />
do mundo em que estamos aprisionados na matéria;<br />
a recuperação, elemento que retoma a condição de<br />
comunhão com as coisas vivas e de integralidade humana;<br />
e a consolação, que permite ao ser humano<br />
esperar algo além de sua visão limitada pela própria<br />
condição humana.<br />
Tais utilidades das estórias de fadas se reúnem<br />
em um conceito central de Tolkien: a subcriação.<br />
A principal forma de as estórias de fadas atingirem<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 13<br />
seus objetivos, o encontro com Feéria, é a criação de<br />
um mundo fantástico. Cada subcriador se utiliza dos<br />
elementos do Caldeirão de Estórias, e serve sua sopa<br />
com determinados elementos já existentes. Porém é<br />
graças à atividade artística do subcriador que se consegue<br />
a medida para que os meios das estórias de<br />
fadas consigam produzir frutos.<br />
Apenas se consegue fantasia, recuperação, escape<br />
e consolo quando a medida correta é conseguida. No<br />
caso, a subcriação é essa medida. A subcriação é feita<br />
quando se consegue produzir uma crença secundária,<br />
em que o leitor se permite acreditar em algo verossímil,<br />
coerente, mesmo que num ambiente de criaturas<br />
sobre-humanas, num ambiente sobrenatural, com divindades<br />
e seres muito além da realidade material.<br />
Essa correspondência com a criação,20 o mundo<br />
no qual vivemos, passa pela realidade da divindade<br />
criadora. São as virtudes promovidas pela religião<br />
que estabelecem a correspondência, pois Deus nos<br />
indica como agir corretamente. Em suma: pode até<br />
existir um mundo com o sol verde, com árvores amarelas,<br />
porém deve obedecer a um parâmetro que permita<br />
uma explicação de que Deus, ou seus avatares,<br />
criaram o sol verde para expressar a gratidão da grama,<br />
e as árvores amarelas para mostrar a proteção do<br />
fogo quando usado para aquecer os seres humanos.<br />
Assim, como na religião do mundo primário, na criação,<br />
a arte subcriativa demonstra o cuidado de Deus<br />
com a natureza e com os seres humanos, e nisso existe<br />
a lógica religiosa real no mundo primário.<br />
Da mesma forma, seres humanos compostos de<br />
ferro, num mundo subcriado, devem seguir as virtudes<br />
propostas da religião da mesma forma que os<br />
seres humanos de carne e osso o fazem no mundo<br />
primário, pois a honra e a coragem são importantes<br />
tanto no mundo primário, na criação, quanto nos<br />
mundos secundários. Se, ao contrário, os seres humanos<br />
de lama forem traidores e mentirosos, serão<br />
condenados no mundo secundário, assim como traição<br />
e mentira são condenáveis no mundo primário.<br />
Somente assim será possível estabelecer uma ligação<br />
entre o desejo dos seres humanos e a arte subcriativa.<br />
Em Mythopoieia, Tolkien escreve:<br />
The heart of Man is not compound of lies,<br />
but draws some wisdom from the only Wise,<br />
and still recalls him. Though now long estranged,<br />
Man is not wholly lost nor wholly changed,<br />
Dis-graced he may be, yet is not dethroned,<br />
and keeps the rags of lordship once he owned,<br />
his world-dominion by creative act:<br />
not his to worship the great Artefact,<br />
Man, Sub-creator, the refracted light<br />
through whom is splintered from a single White<br />
to many hues, and endlessly combined<br />
in living shapes that move from mind to mind.<br />
Though all the crannies of the world we filled<br />
with Elves and Goblins, though we dared to build<br />
Gods and their houses out of dark and light,<br />
and sowed the seed of dragons, ‘twas our right<br />
(used or misused). The right has not decayed.<br />
We make still by the law in which we´re made.21<br />
(Lopes, 2006, p. 155)<br />
Nesse trecho do poema Tolkien novamente retoma<br />
a visão da subcriação como correspondência da verdade<br />
religiosa. Apesar da queda humana, a descrição<br />
da expulsão do homem e da mulher do Paraíso de<br />
Deus feita no relato bíblico, no livro de Gênesis, o ser<br />
humano ainda é fi lho de Deus, sua criatura. Assim,<br />
apesar de desgraçado, o ser humano ainda carrega<br />
em si a realeza de Deus.<br />
Ao recusar o deus-artefato, Tolkien critica novamente<br />
o materialismo e a tecnologia da ciência moderna.<br />
A capacidade de compreensão e de desenvolvimento<br />
intelectual e espiritual do ser humano é<br />
imensa, como as luzes que se refratam em vários tons,<br />
mas a unidade é novamente resgatada no branco. Por<br />
fi m, a apologia de que as estórias de fadas, com elfos,<br />
duendes, deuses de trevas e luz, dragões, são parte<br />
da herança de Deus ao ser humano, a capacidade de<br />
criação imaginativa.<br />
Na dimensão da consolação das estórias de fadas,<br />
existe um desdobramento fundamental, e chegamos<br />
ao conceito central no pensamento religioso<br />
de Tolkien, a eucatástrofe. Eucatástrofe signifi ca boa<br />
catástrofe, a virada que permite que as virtudes que<br />
estão no mundo primário prevaleçam no mundo secundário.<br />
A subcriação na medida correta acontece<br />
quanto mais for verossímil a eucatástrofe. O fi nal feliz<br />
não é algo romântico, bobo ou incoerente, mas<br />
parte integrante da vida e da experiência humana.<br />
Existem perdas, confusão, mortes e sofrimento,<br />
e muitas vezes essa eucatástrofe não é exatamente<br />
como gostaríamos que ela fosse. Existem mudanças<br />
e, muitas vezes, as coisas seguem rumos nunca imaginados.<br />
Porém o que a eucatástrofe revela é que as<br />
virtudes sempre são recompensadas e nunca nenhum<br />
sacrifício é inútil.<br />
Deve haver uma plausibilidade, uma tensão que<br />
também existe no mundo primário, e assim estabelecer<br />
a ligação entre o mundo primário e o secundário.<br />
Assim como na criação muitas vezes pensamos<br />
que as virtudes não irreais e inúteis, mas devemos<br />
mantê-las, para conseguirmos entender o quão válida<br />
elas são, também no mundo secundário acontece o<br />
mesmo. Para afi rmar esse conceito, Tolkien apresenta<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 14<br />
a maior estória de fadas que ele conhece, os evangelhos,<br />
com a narrativa da vida, ensinamentos, paixão,<br />
morte e ressurreição de Jesus Cristo. Assim Tolkien escreve<br />
na parte fi nal de On Fairy-Stories:<br />
It is not difficult to imagine the peculiar excitement and<br />
joy that one would feel, if any specially beautiful fairystory<br />
were found to be “primarily” true, its narrative to be<br />
history, without thereby necessarily losing the mythical<br />
or allegorical significance that it had possessed. It is not<br />
difficult, for one is not called upon to try and conceive<br />
anything of a quality unknown. The joy would have exactly<br />
the same quality, if not the same degree, as the joy<br />
which the “turn” in fairy-story gives: such joy has the<br />
very taste of primary truth. (otherwise its name would<br />
not be joy.) It looks forward (or backward: the direction<br />
in this regard is unimportant) to the Great Eucatastrophe.<br />
The Christian joy, the Gloria, is of the same<br />
kind; but it is pre-eminently (infinitely, if our capacity<br />
were not finite) high and joyous. Because this story is<br />
supreme; and it is true. Art has been verified. God is the<br />
Lord, of angels, and of men — and of elves. Legend and<br />
history have met and fused (Tolkien, 1997, p. 156).22<br />
Nesse trecho Tolkien expressa sua visão evangélica<br />
das estórias de fadas. A idéia da eucatástrofe se coloca<br />
ao lado da ressurreição. A diferença entre estórias<br />
de fadas, história e lenda é abolida. O Evangelho é a<br />
vida de Jesus Cristo, que se inicia na história enquanto<br />
homem, natureza e mistério. Porém é justamente a<br />
arrebentação desses limites que orienta a fé cristã. A<br />
ressurreição é verdadeira, por isso histórica. O mundo<br />
natural é vencido pelos milagres, curas e assombros<br />
que Jesus Cristo realiza, e fi nalmente a Gloria<br />
cristã é a alegria do encontro com um Deus que é<br />
Pai. Nesse sentido Feéria é um vislumbre do Reino<br />
de Deus no mundo, nostalgia do Paraíso perdido no<br />
relato bíblico. Feéria é o lugar de reencontro do ser<br />
humano com os anjos, e com os elfos.<br />
Assim, a eucatástrofe é a característica que diferencia<br />
as estórias de fadas de outros gêneros de narrativa.<br />
A tragédia, o drama, a comédia. É essa grande virada,<br />
quando tudo parece perdido, que se assemelha com<br />
o Glória da ressurreição. E junto os conceitos estória<br />
de fadas, narrativa da experiência humana no Reino<br />
Perigoso, Feéria, associado com o de subcriação, que<br />
esse Reino Perigoso é refl exo das escolhas originais<br />
do ser humano. É o Evangelho que dá sentido a todas<br />
as outras estórias de fadas. Em certo sentido, o drama<br />
evangélico, com a eucatástrofe, é que inicia e redime<br />
todas as outras estórias de fadas. Para Tolkien, o<br />
Evangelho é que é o Fogo que alimenta o Caldeirão<br />
de Estórias, onde surgem todas as porções da Sopa,<br />
que rasga a diferença entre Mundo Primário e Mundo<br />
Secundário, que justifi ca todos os subcriadores, de<br />
toda época e lugar.<br />
Agostinho e as virtudes<br />
Para aprofundarmos a relação que Tolkien estabelece<br />
entre as virtudes e as estórias de fadas, é necessário<br />
o entendimento cristão de virtudes. Para tanto, a<br />
fi losofi a de santo Agostinho23 é a fonte na qual Tolkien<br />
entende suas virtudes.<br />
Em A cidade de Deus,24 Agostinho discorre sobre<br />
como o Império Romano foi grandioso devido aos<br />
dons que recebeu de Deus. Mesmo sem ter a revelação<br />
do Deus único, os romanos buscaram verdadeiramente<br />
as virtudes como centro de sua glória e,<br />
assim, conseguiram que o maior império do mundo<br />
antigo pudesse ser-lhes concedido por Deus. Dessa<br />
forma, Agostinho abre a discussão sobre a ação de<br />
Deus sobre os pagãos, que, mesmo desconhecendo a<br />
revelação monoteísta e cristã, poderiam seguir as virtudes<br />
como caminho para o encontro com a verdade.<br />
Estes são os meios honestos, a saber: chegar à glória, ao<br />
mando e às honras pela virtude, não pela enganadora<br />
ambição. Essas coisas de igual modo deseja o bom e o<br />
remisso; mas aquele, isto é: o bom, toma pelo verdadeiro<br />
caminho. O caminho em que se apóia é a virtude<br />
e apóia-se nele para o fim, que é a possessão, ou seja:<br />
para a glória, a honra e o mando. Que isso se revelou<br />
inato nos romanos indicam-no, entre eles, os templos<br />
dos deuses da Virtude e da Honra, que construíram na<br />
mais estreita união, tendo por deuses o que não passa<br />
de dons de Deus. Daí pode-se inferir o fim que queriam<br />
para a virtude e a que referiam os que eram bons, quer<br />
dizer: a honra, porque os maus não a possuíam, mesmo<br />
quando desejaram ter a honra, que se esforçavam<br />
em conseguir por meios infames, isto é: com enganos e<br />
dolos. (Agostinho, 1991, pp. 208-209).<br />
A visão de Agostinho sobre as virtudes como dons<br />
de Deus demonstra que os romanos obtiveram seu<br />
êxito no mundo por causa da busca e veneração dessas<br />
virtudes, até mesmo como deusas em si. Enganados<br />
por não conhecerem a verdade do monoteísmo<br />
cristão, puderam gozar dos dons das virtudes. No<br />
caso, o objetivo é a glória, a honra e o mando, isto<br />
é: o reconhecimento entre os pares da vitória, essa<br />
vitória considerada justa e respeitável, e, enfi m, o poder<br />
de mando entre seres humanos e Estado oriundo<br />
dessa glória e honra. Por isso que se explica a existência<br />
do Império Romano como dom de Deus para<br />
os romanos.<br />
A própria existência de seres humanos que desejavam<br />
essas virtudes e não as possuíam demonstra,<br />
embora com esforço, que traíam as próprias virtudes,<br />
revela a condição de gratuidade dessas virtudes. Apenas<br />
o caminho correto poderia conceder essas virtudes<br />
e, ainda assim, a forma e para quem era concediCiberteologia<br />
- Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 15<br />
do de forma reta era mistério. Então a conclusão de<br />
Agostinho sobre a concessão de Deus.<br />
Novamente em A cidade de Deus, Agostinho defi -<br />
ne a virtude e expressa como a sua busca pode objetivamente<br />
conceder a felicidade, isto é: a realização<br />
plena do ser humano em seu gozo pela vida.<br />
A virtude os antigos definiram como a arte de viver bem<br />
e retamente. Daí, porque em grego virtude se diz arete,<br />
acreditarem os latinos traduzi-la bem com o nome de<br />
arte. Se a virtude fosse inseparável das faculdades do<br />
espírito, que necessidade haveria do deus Cácio para<br />
torná-los hábeis, isto é: inteligentes, se a felicidade é<br />
capaz de conferi-lo? Nascer engenhoso é privativo da<br />
felicidade. Em conseqüência, mesmo quando o nãonascido<br />
não possa tributar culto à Felicidade, para que,<br />
granjeando-lhe a amizade, lho conceda, aos pais, que<br />
lho tributam, poderá conceder lhes nasçam filhos engenhosos<br />
(Agostinho, 1991, p. 169).<br />
A arte de viver bem e retamente, a arete, é virtude.<br />
Sendo uma arte, há quem faça bem e quem não faça.<br />
Mesmo o engenhoso, o inteligente, que pode aproximar-<br />
se mais facilmente da felicidade, deve buscar<br />
essa felicidade, objetivo último da virtude. Toda virtude<br />
existe e é concedida pela busca da felicidade.<br />
Felicidade é viver bem e retamente, a virtude é a<br />
arte pela qual se encontra essa vida. Mesmo quem<br />
não tem capacidade de engenhosidade e inteligência<br />
deve buscar essa vida para que os familiares em<br />
seu entorno possam, sendo pais ou fi lhos, porventura<br />
conseguir tal felicidade. Também a concepção de que<br />
é algo que deve ser buscado e não algo inato ao ser<br />
humano, a virtude deve ser entendida, sempre, como<br />
uma busca. Por isso Agostinho coloca a questão de<br />
que, se a virtude fosse algo inseparável do espírito,<br />
não haveria necessidade de deuses, ou seja: de algo<br />
além do ser humano, algo que a concedesse.<br />
Apesar da discussão25 entre vontade e graça em<br />
Agostinho, podemos estabelecer a condição de que<br />
a virtude é algo que deve ser buscado pela vontade,<br />
porém é concedida pela graça divina. Assim, a<br />
diferença que Agostinho realiza entre querer, poder<br />
e fazer impõe-se como uma expressão da busca da<br />
virtude para alcançar a felicidade, isto é: a vida reta<br />
e boa. Para tanto, as virtudes no mundo pré-cristão,<br />
que Agostinho investiga, demonstram esta realidade:<br />
da mesma forma que Deus se revelou aos hebreus,<br />
também aos pagãos existiam caminhos que indicavam<br />
a presença do Cristo.<br />
Ao identifi car os objetivos romanos da felicidade<br />
como glória, honra e mando, Agostinho retoma<br />
a pessoa de Jesus Cristo como expressão central dessas<br />
qualidades. Em O livre-arbítrio,26 Agostinho defi -<br />
ne Jesus Cristo como a Força e a Sabedoria de Deus.<br />
Essa defi nição pode enquadrar-se nas características<br />
da glória, da honra e do mando romanos. Assim, a<br />
própria pessoa de Jesus Cristo é em si a mais gloriosa,<br />
honrada e poderosa, a honra, o poder e a glória são<br />
exclusivos do Filho de Deus.<br />
Porta-te com ânimo viril, e persevera acreditando na<br />
verdade em que acreditas, pois nada é mais recomendável<br />
que se acredite, embora se mantenha oculta a<br />
razão por que (tal verdade) é assim, ter de Deus o mais<br />
alto grau de devotividade. Ora, ninguém acredita que<br />
ele é onipotente, e que nem por minúscula parcela (da<br />
sua natureza) está sujeito a mudança. (Não se acredita)<br />
igualmente que é ele o criador de todas as coisas boas,<br />
às quais sobreleva. Que também é o dirigente justíssimo<br />
de todas as coisas por ele criadas. E bem assim,<br />
que não foi ajudado na criação por nenhum outro ser,<br />
como quem se não bastasse a si mesmo. Daí ter criado<br />
do nada todas as coisas e que, procedente dele mesmo,<br />
não tenha criado mas gerado quem lhe fosse igual, esse<br />
que nós professamos ser o Filho único de Deus, e a<br />
quem, se pretendemos designá-lo mais acessivelmente,<br />
chamamos Força e Sabedoria de Deus, por meio<br />
da qual fez todas as coisas, que foram feitas do nada.<br />
Assentes estas verdades, dirijamos os nossos esforços,<br />
com a ajuda de Deus e pelo modo que vai seguir-se,<br />
para a intelecção do assunto sobre que me interrogas<br />
(Agostinho, 1986, pp.25-26).<br />
Aqui, Agostinho exprime a coerência entre acreditar<br />
na onipotência de Deus e sua característica de<br />
Criador. Além de ser a potência original, o criador de<br />
tudo, é também o justo juiz que determina e condena<br />
tudo o que acontece no mundo. Também demonstra a<br />
geração do Filho de Deus, Jesus Cristo, como Senhor<br />
e Ordenador do mundo. Enquanto Deus é potência<br />
criadora e reguladora, Jesus Cristo é o Ordenador do<br />
mundo, ou seja: aquele que domina os caminhos da<br />
vida da boa e reta vida, enfi m, da felicidade. E assim<br />
expressa os fundamentos da Força e da Sabedoria divina.<br />
Essas mesmas características valorizadas pelos<br />
romanos são atribuídas por Agostinho a Jesus Cristo.<br />
As características de Força e Sabedoria de Deus<br />
são expressas primeiramente por são Paulo (1Cor<br />
1,22-31), quando afi rma que Jesus Cristo transforma a<br />
noção tanto de judeus quanto de gregos na qualidade<br />
de valores de Força e Sabedoria.<br />
No evangelho de João, a apresentação de Jesus<br />
Cristo é feita através da Palavra de Deus (Jo 1,1-18),<br />
que é o meio pelo qual tudo foi feito, onde se encontra<br />
a vida enquanto luz que dispersa as trevas, que é<br />
voltada para Deus e é o próprio Deus. Também se revela<br />
na encarnação da Palavra, como um homem que<br />
veio mostrar, ensinar e doar a capacidade humana de<br />
amar como o próprio Deus ama.<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 16<br />
Para tal doação, Agostinho refl ete sobre a virtude<br />
como fazendo parte dessa doação do amor. Embora<br />
haja diferença entre a revelação de Jesus Cristo,<br />
sua vida e sua ressurreição, as demais virtudes humanas<br />
apresentadas no decorrer da história também<br />
são encontradas, enquanto dons de Deus, na pessoa<br />
de Jesus Cristo. Assim especifi ca o professor Antônio<br />
Soares Pinheiro, tradutor e comentador da edição de<br />
O livre-arbítrio por nós adotada, objetivamente, o que<br />
se entendia por virtude:<br />
O latim dispunha do substantivo virtus (virtude), mas<br />
não possuía o adjetivo correspondente. Uma das expressões<br />
a que se recorria para suprir essa falta era o<br />
adjectivo justus, e isso contribuía para que um dos sentidos<br />
da palavra justitia (justiça) viesse a ser o de virtude.<br />
Por outro lado, tanto justus como justitia ora se<br />
aplicavam a determinada virtude, ora à posse normal<br />
de todas, ora à sua posse no supremo grau de perfeição.<br />
A par dessas acepções, justiça designava também o que<br />
hoje por ela entendemos, isto é: a virtude que obriga a<br />
dar a cada um o que lhe pertence ou é devido (Pinheiro,<br />
1986, p. 52).<br />
Segundo essa defi nição, virtude pode ser entendida<br />
através da concepção de uma determinada virtude,<br />
ou como a posse de todas as virtudes em certo<br />
grau ou o domínio máximo de certa virtude. A relação,<br />
portanto, entre virtude e justiça se expressa de<br />
forma íntima. O fato de justiça e justo serem associados<br />
ao fundamento da virtude pode fazer com que<br />
sejam confundidos o virtuoso com o justo. Aqui é necessário,<br />
então, diferenciarmos o que é exatamente a<br />
justiça em termos de Agostinho.<br />
A virtude é a arte de viver bem e retamente, que<br />
é a felicidade. Logo a virtude é a arte de se chegar à<br />
felicidade. Porém existem várias virtudes como caminhos<br />
para esse objetivo. Virtude pode ser entendida<br />
tanto como a vida virtuosa como uma determinada<br />
virtude ou como o domínio supremo de perfeição.<br />
Assim, é necessário entendermos como Agostinho<br />
compreende essas virtudes, além da justiça, que<br />
expressa seu fundamento mais íntimo. Para tal, no<br />
próprio O livre-arbítrio, existe uma defi nição de tais<br />
virtudes, que são retomadas em toda a obra de Agostinho,<br />
até n’A cidade de Deus.<br />
[...] prudência é o conhecimento do que se deve buscar,<br />
e do que se deve evitar.<br />
[...] fortaleza é aquela aficiência27 pela qual desprezamos<br />
todas as incomodidades e perdas de bens, que não<br />
estão em nosso poder.<br />
[...] a temperança é a aficiência que reprime e afasta a<br />
vontade das coisas que se desejam aviltantemente.<br />
No tocante à justiça, que diremos ser ela senão a virtude<br />
pela qual se dá a cada um o que é seu?<br />
(Agostinho, 1986, pp. 59-60)<br />
São essas as quatro virtudes que Agostinho defi -<br />
ne como fundamentos da felicidade. Todos os impérios<br />
pagãos de alguma forma conseguiram seu poder,<br />
honra e glória através dessas quatro virtudes. São<br />
chamadas de cardeais, porque indicam a direção da<br />
vida reta e boa, a felicidade. Ao aproximar o termo<br />
virtude de justiça, também é necessário apontar as<br />
outras três virtudes, para que fi que claro que o virtuoso<br />
não é apenas o justo, mas aquele que busca as três<br />
outras virtudes.<br />
Dessa forma, ao designar Jesus Cristo como Força<br />
e Sabedoria de Deus, Agostinho também apresenta<br />
as virtudes humanas que o próprio Cristo possuía e<br />
concedia. Força é a fortaleza, como a superação das<br />
perdas e danos que sofremos — físicos, psíquicos ou<br />
sociais —, e justiça é a capacidade humana e social<br />
de distribuição de bens físicos, psíquicos e sociais.<br />
Enquanto por sabedoria presume-se a temperança<br />
— como autocontrole e discernimento também físico,<br />
psíquico e social —, a prudência — como conhecimento<br />
daquilo que move o ser humano, seja para<br />
o bem, seja para o mal, e a capacidade de distinguir<br />
a ambos.<br />
O pensamento de Agostinho sobre as virtudes expressa-<br />
se, então, como um fundamento de ligação<br />
com Deus. A virtude é o caminho da felicidade, e<br />
essa felicidade é a união com Deus, é sua fruição,28<br />
entendido como a alegria, o gozo de estar junto com<br />
Deus. É esse o caminho que o cristão, ao seguir Jesus<br />
Cristo, deve abraçar. As virtudes são dons de Deus<br />
assim como a própria união com Deus. O caminho<br />
virtuoso fundamental é o seguimento de Jesus Cristo<br />
em seus ensinamentos e práticas. É a vida de Jesus<br />
Cristo que demonstra a verdadeira felicidade, que é<br />
a alegria da ressurreição, a glória, como verdade do<br />
amor de Deus e da possibilidade humana de estar<br />
unido a esse Deus.<br />
Beowulf e as virtudes<br />
Depois de defi nirmos os conceitos literários de<br />
Tolkien, e as defi nições de virtude de Agostinho, retomamos<br />
agora como Tolkien avalia o poema Beowulf.<br />
Em seu ensaio Beowulf: The Monsters and the<br />
Critics (1936), Tolkien busca compreender esse texto<br />
que narra as aventuras do príncipe dos geats, povo<br />
da Suécia atual, no século IV d.C., que parte para<br />
Heorot, o salão do hidromel do rei Hrothgar, do povo<br />
dos dinamarqueses. Em busca de glória, o príncipe<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 17<br />
Beowulf, dos geats, descobre que Heorot é atacada<br />
constantemente por Grendel, monstro antropomórfi -<br />
co que devora os maiores guerreiros do rei Hrothgar.<br />
Depois de lutar e matar o monstro, Beowulf também<br />
derrota a mão de Grendel, retornando como herói<br />
honrado e glorioso para sua terra.<br />
Depois de muitos anos, agora como rei dos geats,<br />
Beowulf enfrenta sua derradeira batalha, ao enfrentar<br />
o dragão que ataca seu povo. Graças à ajuda de seu<br />
parente Wiglaf, e com o sacrifício do próprio Beowulf,<br />
o dragão é morto. Porém o funeral de Beowulf<br />
prenuncia a era de tristeza dos geats, pois o maior de<br />
seus guerreiros e seu próprio rei está morto.<br />
Ao estudar o poema, Tolkien elenca sete pontoschave<br />
em sua compreensão. São esses pontos que<br />
nos permitem fazer uma aproximação entre o pensamento<br />
literário de Tolkien expresso em On Fairy-Stories<br />
e a fi losofi a de Agostinho sobre as virtudes.<br />
Esse poema foi analisado por Tolkien em seu ensaio<br />
como um poema. Eis o primeiro ponto importante.<br />
O valor literário em termos de beleza e força<br />
criativa. Tolkien ressalta esse ponto justamente porque<br />
quer delimitar sua crítica entre entender Beowulf<br />
como um documento histórico ou como um tratado<br />
teológico. Quer justamente fazer o que considera o<br />
meio-termo entre ambos. Não é algo teórico fi losófi<br />
co ou conceitual, é um poema escrito para retratar<br />
beleza, encantamento e arte, ao mesmo tempo que<br />
não é um documento histórico, porque não trata exatamente<br />
da história documental ou administrativa de<br />
qualquer instituição ou corpo burocrático. São mitos<br />
e lendas de um povo.<br />
Aqui, aproximamo-nos de seu conceito de subcriação.<br />
A importância de um poema é mais do que<br />
seu valor estético. Não é porque é belo, mas porque<br />
é bom e verdadeiro. A preocupação de Tolkien em<br />
afi rmar que seu estudo é sobre o poema, e não sobre<br />
seus conceitos ou sobre seu contexto histórico,<br />
é para ressaltar que o próprio poema, enquanto arte,<br />
expressa conceitos e um contexto, porém isso não<br />
é o mais importante. O importante é exatamente o<br />
impacto que o poema tem sobre o leitor. Sobre as<br />
refl exões que podem ou não possuir a aplicabilidade<br />
em outros tempos e outros pensamentos.<br />
É exatamente esse segundo ponto que Tolkien<br />
aprofunda em seu ensaio. Faz diferença entre alegoria<br />
e mito. Para Tolkien, a alegoria possui um signifi<br />
cado direto do signifi cante. O que é representado<br />
pode ser explicado sem maiores difi culdades através<br />
daquilo que representa. Não é assim que Tolkien estuda<br />
em Beowulf:<br />
The myth has other forms than the (now discredited)<br />
mythical allegory of nature: the sun, the seasons, the<br />
sea, and such things&#8230; The significance of a myth is not<br />
easily to be pinned on paper by analytical reasoning.<br />
It is at its best when it is presented by a poet who fells<br />
rather than makes explicit what his theme portends;<br />
who presents it incarnate in the world of history and<br />
geography, as our poet has done. Its defender is thus at<br />
a disadvantage: unless he is careful, and speaks in parables,<br />
he will kill what he is studying by allegory, and,<br />
what is more, probably with one that will not work. For<br />
myth is alive at once and in all its parts, and dies before<br />
it can be dissected (Tolkien, 1997, p.15)29<br />
A crítica de Tolkien em relação à racionalidade<br />
analítica se funda no resgate do pensamento mítico.<br />
A compreensão dos mitos como alegorias de fenômenos<br />
da natureza que os antigos não entendiam não<br />
é aceita por Tolkien, para quem o mito está vivo e é<br />
mais fácil um poeta compreendê-lo do que um cientista<br />
moderno.<br />
Essa concepção mais uma vez corrobora seu conceito<br />
de subcriação, e mesmo o de eucatástrofe. Ao<br />
estar vivo, o mito produz sentimentos e realidade que<br />
a razão analítica não consegue explicar. Somente<br />
a poesia pode aproximar-se dessa explicação, dessa<br />
verdade que o poeta pode exprimir com base no<br />
mundo da história e da geografi a, ou seja: no tempo e<br />
no espaço que pode ser compreendido pelos seus pares.<br />
Isso não signifi ca que o próprio mito esteja preso<br />
neste tempo e espaço, porém é a maneira do poeta<br />
expressar essa realidade mítica que não pode ser explicada<br />
nem mesmo alegoricamente.<br />
De mesma forma, ao refl etir sobre a fi losofi a de<br />
Agostinho, as mesmas virtudes que são encontradas<br />
nos diversos povos independem do tempo e do espaço.<br />
Jesus Cristo é atemporal, e embora sua revelação<br />
aconteça em determinado tempo da história isso não<br />
signifi ca que os demais tempos não tivessem virtudes<br />
que refl etissem seu caminho. A relação que Tolkien<br />
faz com o mundo primário, e daí a compreensão das<br />
virtudes, pode ser alargada para as estórias de fadas,<br />
e daí o entendimento do mito como eco do Evangelho,<br />
independente do tempo e do espaço.<br />
No terceiro ponto de análise de Tolkien em relação<br />
a Beowulf, a importância simbólica é expressa.<br />
O dragão é o mal. Esse símbolo30 está presente em<br />
várias culturas, seja a serpente malévola do relato do<br />
Gênesis (3,1-14), seja a serpente de Midgard,31 da mitologia<br />
escandinava, que circula o mundo e vai despertar<br />
no Ragnarok, o fi m dos tempos. Seja o dragão<br />
enfrentado e morto pelo rei Beowulf, que morre por<br />
causa dos ferimentos, seja o dragão cor de fogo do<br />
Apocalipse cristão (Ap 12,1-18).<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 18<br />
Para Tolkien, o dragão é o mal absoluto, a morte<br />
como derradeiro fi m. Na mitologia escandinava, o<br />
Ragnarok termina com todos os deuses derrotados,<br />
mas com os gigantes mortos, e Surtur, o grande demônio<br />
do fogo, incendeia tudo e é o fi m dos tempos.<br />
Para Beowulf, o que importa para conseguir glória,<br />
honra e comando é a capacidade de resistir aos apelos<br />
da covardia e da fraqueza de decisão. O mundo<br />
da pós-morte também não oferecia descanso eterno,<br />
pois os grande guerreiros também viveriam apenas<br />
para lutar no fi m dos tempos, onde todos seriam derrotados,<br />
inclusive os deuses.<br />
Aqui, estabelecemos o quarto ponto do estudo de<br />
Tolkien, e o fundamental em relação às virtudes de<br />
Agostinho: o dogma da coragem na mitologia escandinava.<br />
A principal virtude trazida pela narrativa de<br />
Beowulf ecoa o fundamento mitológico do Ragnarok.<br />
O que importa é não desistir. Não há esperança de<br />
vitória, nem mesmo com a ajuda dos deuses, porque<br />
os próprios deuses estão fadados a morrer.<br />
Embora seja um texto que traga Grendel e sua mãe<br />
como monstros antropomorfos e devoradores de seres<br />
humanos, ambos são descendentes do Caim da Escritura<br />
hebraica. Assim, a presença do cristianismo no<br />
texto é clara, também nos valores que os reis trazem<br />
em si. Força e sabedoria são as marcas fundamentais<br />
nos ideais propostos nos reis, assim como Agostinho<br />
expressa a pessoa de Jesus Cristo.<br />
Tanto Hygelac, reis dos geats, tio de Beowulf e<br />
seu antecessor no trono, quanto Hrothgar e o próprio<br />
Beowulf como rei giram nessa tensão entre força e<br />
sabedoria. Enquanto Hrothgar, rei dos dinamarqueses,<br />
é a sabedoria, monoteísta, acolhedor e doador<br />
de anéis,32 porém já idoso e sem forças para enfrentar<br />
Grendel, que ameaça seu povo; enquanto Hygelac<br />
é o valoroso rei dos bravos geats, povo do próprio<br />
Beowulf, rei que morre em batalha em invasão de outros<br />
povos, Beowulf é apresentado como aquele que<br />
consegue ter a sabedoria e a força durante seu tempo<br />
de juventude e de herói, ao matar Grendel, e governa<br />
com sabedoria seu povo quando se torna rei, e não<br />
foge da batalha contra o inimigo último, símbolo do<br />
próprio mal, o dragão.<br />
Embora todos esses símbolos possuam concomitância<br />
entre as Escrituras e a fi losofi a de Agostinho em<br />
relação à força e à sabedoria, e à mitologia escandinava,<br />
Tolkien apresenta a formulação própria do texto<br />
de Beowulf como a visão da coragem caracetrística<br />
da virtude escandinava.<br />
So regarded Beowulf is, of course, an historical document<br />
of the first order for the study of the mood and<br />
thought of the period and one perhaps too litlle used for<br />
the purpose by professed historians. But it is the mood<br />
of the author, the essential cast of his imaginative apprehension<br />
of the world, that is my concern, not history<br />
for its own sake; I am interested in that time of fusion<br />
only as it may help us to understand the poem. And<br />
in the poem I think we may observe not confusion, a<br />
half-hearted or a muddled business, but a fusion that<br />
has ocurred at a given point of contact between old and<br />
new, a product of thought and deep emotion.<br />
“One of the most potent elements in that fusion is the<br />
Northern courage: the theory of courage, which is the<br />
great contribution of early Northern literature (Tolkien,<br />
1997, p. 20).33<br />
Aqui, Tolkien demonstra sua preocupação fundamental:<br />
a apreensão imaginativa do poeta que escreveu<br />
Beowulf. De fato, o conceito de estória de fada<br />
como uma subcriação se apresenta também em Beowulf.<br />
O mundo primário é descrito, porém com elementos<br />
que estão presentes no caldeirão de estórias.<br />
Dragão, Caim, Grendel e sua mãe estão em combate<br />
com fi guras de reis e heróis que se balizam nas virtudes<br />
de Agostinho. A teoria da coragem, ou o dogma,<br />
que Tolkien apresenta em seu ensaio, nos mostra<br />
o quão importante esse fundamento se apresenta na<br />
narrativa de Bewoulf. Da mesma maneira que os romanos<br />
receberam seu Império como dom de Deus<br />
através das virtudes, os escandinavos também mantiveram<br />
sua cultura e sua tradição através do dom da<br />
coragem.<br />
É possível traçar paralelos com as virtudes de<br />
fortaleza, justiça, temperança e prudência através<br />
do dogma da coragem. E este é o quinto ponto que<br />
Tolkien apresenta em Beowulf. Tal ponto de fusão entre<br />
a cristandade e o pensamento pagão é o que se<br />
apresenta no poema. Não algo misturado de forma<br />
desordenada, mas uma coerência e uma harmonia<br />
que produz um poema com valor em si mesmo.<br />
Neste ponto, ao entender o pensamento pagão de<br />
Beowulf e ao mesmo tempo expressar o monoteísmo<br />
de Hrothgar e a descendência de Grendel até Caim,<br />
as escrituras se fazem presente. Na mitologia escandinava,<br />
não há salvação, nem mesmo para os mais<br />
fortes. O Ragnarok irá consumir tudo, inclusive os<br />
deuses. A batalha, então, se torna espiritual, pois não<br />
é mais possível recuar pela própria honra.<br />
A resistência se torna perfeita, porque é sem esperança<br />
nenhuma. A noção de que é possível agarrar<br />
a vitória pela teimosia em continuar lutando mesmo<br />
sem esperança. Ao concretizar esse dogma, o paganismo<br />
de Beowulf se aproxima da Paixão de Jesus<br />
Cristo, descrita no evangelho de João (Jo 18,1-40), que<br />
a apresenta de forma diferente da dos demais evangeCiberteologia<br />
- Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 19<br />
lhos sinóticos, onde Jesus sua sangue (Lc 22,35-53),<br />
pede para o pai afastar o cálice (Mc 14,32-42), ou<br />
mesmo duvida da presença do pai em sua agonia na<br />
cruz (Mt 27,45-51).<br />
No evangelho de João, a quem Tolkien, por também<br />
chamar-se João (John), considerava seu patrono,34<br />
Jesus Cristo é apresentado sem medo de seu martírio<br />
e de sua cruz. Um Jesus Cristo que busca cumprir<br />
exatamente o plano de Deus sem nenhuma dúvida.<br />
É a vontade superando qualquer sentimento de fraqueza.<br />
O sexto ponto do estudo de Beowulf é a apresentação<br />
que faz da mitologia do Norte em comparação<br />
com a mitologia do Sul. Para Tolkien, o continente<br />
europeu dava muito valor aos deuses do Sul, entendido<br />
como o Mediterrâneo, especifi camente o mundo<br />
greco-romano, e deveria reconhecer melhor as contribuições<br />
que foram feitas em sua cultura e formação,<br />
oriundas do mundo do Norte, especifi camente<br />
da Escandinávia e do anglo-saxão.<br />
No ensaio, Tolkien realiza uma comparação entre<br />
os deuses e os monstros na Eneida, de Virgílio,35 na<br />
Odisséia, de Homero,36 e no Beowulf. A concepção<br />
do ciclope como um fi lho dos deuses que os seres<br />
humanos devem enganar porque invadiram seu lar e,<br />
assim, dentro de um jogo dos próprios deuses, conseguir<br />
voltar sãos para suas casas diverge completamente<br />
da visão de Grendel, de sua mãe e do dragão.<br />
Em Beowulf os monstros são o mal. Os deuses são<br />
aliados dos seres humanos em sua tentativa desesperada<br />
de lutar uma luta inútil, mas que é a única opção<br />
para os seres humanos que merecem ser chamados<br />
assim, com base na glória, honra e poder de comando.<br />
Como os objetivos romanos em sua cidade. As<br />
relações entre os dons das virtudes são fundamentais<br />
na análise dos monstros e dos deuses. Mesmo condenando<br />
os deuses romanos como demônios e ilusões,<br />
Agostinho via nas virtudes o meio pelo qual Jesus<br />
Cristo poderia manifestar-se em mundos que ainda<br />
não o conheciam. Isso refl ete muito mais as descrições<br />
dos monstros e dos gigantes (Gn 6,1-8) como<br />
adversários de Deus no Gênesis. A aproximação é<br />
mais direta entre Beowulf e as Escrituras cristãs. Da<br />
mesma forma, Tolkien interpreta o poema Beowulf<br />
com essa ênfase.<br />
“In Beowulf we have, then, an historical poem about<br />
the pagan past, or an attempt at one — literal historical<br />
fidelity founded on modern research was, of course, not<br />
attempted. It is a poem by a learned man writing of<br />
old times, who looking back on the heroism and sorrow<br />
feels in them something permanent and something<br />
symbolical. So far from being a confused semi-pagan<br />
— historically unlikely for a man of this sort in the period<br />
— he brought probably first to his task a knowledge<br />
of Christian poetry, especially that of the Caedmon<br />
school, and specially Genesis… Secondly, to his task<br />
the poet brought a considerable learning in native lays<br />
and traditions… (Tolkien, 1997, pp. 26-7).37<br />
Essa concepção do sentimento de pesar e de<br />
heroísmo de um povo pagão, provavelmente da própria<br />
tradição e cultura do ser humano instruído, é o<br />
principal elo de ligação entre a escritura de Beowulf<br />
e Agostinho. Da mesma forma que o bispo de Hipona,<br />
professor de cultura romana, estudioso dos mitos<br />
e lendas de Roma, busca no passado de sua civilização,<br />
e mesmo nos cultos dos deuses, aquilo pelo<br />
qual Deus concedeu certa virtude, o texto anglo-saxão<br />
faz o mesmo.<br />
Sentir algo de permanente e simbólico, a verdade,<br />
expressa em versos e linhas que ecoam a teoria da<br />
coragem, o dogma da luta desesperançada, da força<br />
e sabedoria de Deus, Jesus Cristo, que é insensatez<br />
para os gregos e escândalo para os judeus (1Cor<br />
1,23). Eis os reis que devem ser seguidos, aqueles aos<br />
quais Deus concedeu as virtudes que indicam sua<br />
predileção e seu caminho em direção à verdade da<br />
lei inscrita nos corações.<br />
É essa mesma escrita que refl ete as estórias de fadas.<br />
O Evangelho justifi ca Beowulf, Eneida, Odisséia,<br />
Gênesis. E também os elfos e hobbits de O senhor<br />
dos anéis, do Silmarillion e do Hobbit. O fato de o<br />
ser humano poder criar estórias de fadas signifi ca o<br />
fato de querer investigar as causas primeiras de sua<br />
conduta e de suas virtudes. Por que ser justo, prudente,<br />
temperante e forte é o que busca responder<br />
nas estórias de fadas. E é justamente o Evangelho que<br />
permite que tais anseios sejam portadores dessa verdade<br />
revelada.<br />
Finalmente, o sétimo ponto que Tolkien resgata<br />
em Beowulf é a construção do pensamento no texto<br />
e não de sua história. Tolkien quer encontrar aquilo<br />
que permanece enquanto verdade, especifi camente<br />
traduzida nas virtudes, apresentadas através da narrativa<br />
simbólica de monstros e heróis. O confl ito contra<br />
o mal, simbolizado pelo dragão, é justamente o mesmo<br />
confl ito do Apocalipse cristão.<br />
É o caráter inumano dos monstros que extrapola<br />
a refl exão de cunho histórico e de registro. São<br />
justamente as batalhas contra seres sobre-humanos e<br />
sobrenaturais que remetem a investigação e o pensamento<br />
sobre a realidade natural. A discussão cósmica<br />
sobre o destino da vida humana, seus esforços e suas<br />
virtudes. As estórias de fadas têm como centro a refl exão<br />
sobre a natureza. É o ser humano diante daquilo<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 20<br />
que pode e não pode. Seus limites diante do mistério<br />
e suas conquistas e descobertas diante da criação.<br />
It just because the main foes in Beowulf are inhuman<br />
that the story is larger and more significant than this<br />
imaginary poem of a great king´s fall. It glimpses the<br />
cosmic and moves with the thought of all men concerning<br />
the fate of human life and efforts (Tolkien, 1997,<br />
p.33).38<br />
Para muito além da discussão política, seja gloriosa,<br />
seja honrada, as estórias de fadas tratam do destino<br />
e do sentido dos seres humanos. As virtudes, o<br />
exemplo do rei, não são fundamentais em si mesmas,<br />
somente em direção ao mistério do sobre-humano.<br />
Assim, a aproximação entre a permanência das virtudes<br />
presentes nas estórias de fadas, mitológicas e<br />
inventadas, é a permanência da eternidade de Deus.<br />
As virtudes são dons de Deus e também eternas<br />
enquanto tais, porque estão presentes em Jesus Cristo<br />
enquanto verdadeiro homem e verdadeiro Deus. É<br />
isso que justifi ca sua existência em outros povos antes<br />
de Jesus Cristo e de diferentes culturas e tradições.<br />
Agostinho, no trecho fi nal de O livre-arbítrio, novamente<br />
apresenta essa conclusão, quando entoa quase<br />
um hino à retitude, o domínio pleno das virtudes.<br />
É, porém, tão grande a beleza da retitude, tão grande<br />
o enlevo da luz eterna, isto é: da Verdade e Sapiência<br />
incomutável, que mesmo se não fosse permitido permanecer<br />
nela mais que pelo espaço de um dia, só por<br />
isso se desprezariam, com razão e merecidamente, inumeráveis<br />
anos desta vida, embora cheios de delícias, e<br />
de superabundância de bens temporâneos. Com efeito,<br />
não foi dito pelo salmista sem fundamento, ou com pequeno<br />
afeto: pois um só dia nos vossos átrios vale mais<br />
que milhares. Se bem que isso se pode entender noutro<br />
sentido, referindo-se os milhares de dias à mutabilidade<br />
do tempo, e designando-se pelo apelativo dia a imutabilidade<br />
da eternidade (Agostinho, 1986, p. 266).<br />
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1992.<br />
LOPES, Reinaldo. Árvore de estórias. Dissertação de<br />
mestrado. São Paulo, USP, 2006.<br />
LOYN, H. R.. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro,<br />
Jorge Zahar Editor, 1990.<br />
TOLKIEN, J.R.R. O hobbit. São Paulo, Martins Fontes,<br />
2003.<br />
______. O senhor dos anéis. São Paulo, Martins Fontes,<br />
2001.<br />
______. O silmarillion. São Paulo, Martins Fontes,<br />
2002.<br />
______. The Monsters and The Critics and Other Essays.<br />
London, HarperCollins, 1997.<br />
Notas<br />
* Mestrando em Ciências da Religião na PUC/SP. Contato:<br />
dklautau@yahoo.com.br.<br />
1 “Mas no momento em que a esperança morria em<br />
Sam, ou parecia morrer, ela se transformou em<br />
uma nova força. O rosto simples do hobbit ficou<br />
austero, quase cruel, no momento em que sua<br />
disposição se endureceu, e ele sentiu um frêmito<br />
percorrer-lhe pernas e braços, como se tivesse se<br />
transformado em alguma criatura de pedra e aço,<br />
que não poderia ser subjugada nem pelo desespero,<br />
nem pelo cansaço, nem por milhas infindáveis de<br />
terra desolada” (Esteves, 2000, p. 989).<br />
2 Folclorista escocês (1824-1905). Um dos primeiros<br />
compiladores de lendas e contos de fadas<br />
escandinavos e da Grã-Bretanha.<br />
3 Folclorista escocês (1844-1912). É atribuído a Lang<br />
a descoberta de uma relativa presença da crença<br />
em um ser supremo em muitas populações nãoletradas,<br />
criador e indicador ético. Ver: FIROLAMO,<br />
Giovanni &amp; PRANDI, Carlo. As ciências das<br />
religiões. São Paulo, Paulus, 1999.<br />
4 Nasceu na África do Sul em 1892, no período do<br />
imperialismo inglês na África. Mudou-se para a<br />
Inglaterra ainda criança, onde estudou, trabalhou<br />
como professor de filologia e anglo-saxão nas<br />
universidades de Leeds e Oxford. Casou-se com<br />
Edith Bratt, teve quatro filhos, foi católico convicto<br />
e questionou fortemente a fundamentação do<br />
nazismo na mitologia escandinava. Morreu<br />
em 1973, com honras do Império Britânico e<br />
consagrado no mundo inteiro por sua criação.<br />
Ver: CARPENTER, Humphrey. J. R .R. Tolkien. Uma<br />
biografia. São Paulo, Martins Fontes, 1992.<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 21<br />
5 Termo cunhado pelo próprio Tolkien, em suas<br />
cartas, para descrever a totalidade de sua criação<br />
literária relativa à Terra-média.<br />
6 Mais antigo poema escrito em anglo-saxão. Datado<br />
do século VII d.C., trata da cultura escandinava e<br />
da mitologia pagã e elementos cristãos. Ver: LOYN,<br />
H.R.. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro,<br />
Jorge Zahar Editor, 1990.<br />
7 Entendido como uma narrativa de criação do<br />
mundo ou de algum fenômeno natural, humano ou<br />
sobrenatural, o mito é uma constante em todas as<br />
religiões. Ver: CROATTO, Severino. As linguagens<br />
da experiência religiosa. São Paulo, Paulinas,<br />
2001.<br />
8 Escritor norte-irlandês (1989-1963), professor em<br />
Oxford e Cambridge de literatura inglesa. Sua<br />
conversão ao cristianismo é atribuída às conversas<br />
com o professor Tolkien.<br />
9 “Benditos os que em rima fazem lenda/ao tempo<br />
não-gravado dando emenda./Não foram eles que a<br />
Noite esqueceram,/ou deleite organizado teceram,/<br />
ilhas de lótus, um céu financeiro, perdendo a alma<br />
em beijo feiticeiro/(e falso, aliás, pré-fabricado,/<br />
falaz sedução do já deturpado)” (Lopes, 2006, p.<br />
158).<br />
10 Considerado primeiro grande poeta grego, suas<br />
obras datam do século VIII a.C. e marcam a poesia<br />
épica.<br />
11 Relativa a Platão (428-347 a.C.), filósofo grego<br />
cujas obras fundam o pensamento ocidental.<br />
12 Existe uma leitura da obra de Tolkien como crítica à<br />
Modernidade, entendida como capitalismo, Estado-<br />
Nação e ciência moderna, daí sua necessidade<br />
de recuperar valores pré-cristãos. Inspirados nas<br />
obras de literatura medieval, como os romances<br />
corteses e as canções de gesta, os escritores<br />
medievais estabeleceriam uma literatura com fins<br />
de exaltar virtudes e valores na formação cultural<br />
da cristandade. Ver: CURRY, Patrick. Defending<br />
Middle-earth. Tolkien: Myth and Modernity.<br />
London, HarperCollins, 1997.<br />
13 Humphrey Carpenter, biógrafo de Tolkien, mostra<br />
que sua vida esteve sempre ligada a um resgate de<br />
virtudes cristãs, principalmente pela vida de Tolkien<br />
durante as guerras mundiais e pelo imperialismo<br />
inglês.<br />
14 Jornalista e mestre em estudos lingüísticos pela<br />
USP. Participa de páginas na internet de divulgação<br />
e estudo das obras de J. R. R. Tolkien. Ver:&lt; www.<br />
valinor.com.br&gt;.<br />
15 Relativo a René Descartes (1596-1650), matemático<br />
e filósofo francês, considerado um dos fundadores<br />
do pensamento moderno. Sua principal tese é a<br />
fundação da razão como elemento possível de<br />
encontro com a verdade do mundo, daí o aforismo<br />
“penso logo existo”, presente em seu Discurso do<br />
método (1637).<br />
16 Ciência que estuda o desenvolvimento de<br />
determinada língua, assim como seus principais<br />
registros históricos e transformações no decorrer<br />
do tempo.A preocupação com o documento da<br />
língua é fundadora da filologia.<br />
17 Filólogo alemão (1823-1900). Considerado um dos<br />
fundadores das Ciências da Religião. Pesquisou<br />
as religiões orientais e a mitologia européia. Ver:<br />
FIROLAMO, Giovanni &amp; PRANDI, Carlo. As<br />
ciências das religiões. São Paulo, Paulus, 1999.<br />
18 “Contudo, essas coisas de fato se tornaram<br />
entrelaçadas — ou talvez elas tenham sido<br />
separadas há muito tempo e tenham desde então<br />
tateado vagarosamente, através de um labirinto<br />
de erro, de confusão, de volta à re-fusão. Mesmo<br />
as estórias de fadas como um todo têm três faces:<br />
a mística voltada para o sobrenatural; a mágica<br />
voltada para a natureza; e o espelho de escárnio e<br />
pena voltado para o ser humano. A face essencial<br />
de Feéria é a do meio, a mágica. Mas o grau em<br />
que as outras aparecem (se aparecem) é variável,<br />
e pode ser decidido pelo contador de estórias<br />
individual” (Lopes, 2006, p. 73).<br />
19 Essa visão de re-encantamento pode ser uma<br />
resposta a um teórico alemão de uma geração<br />
anterior a Tolkien, Max Weber (1864-1920), que<br />
aponta como uma característica da Modernidade<br />
um desencantamento do mundo, entendido como<br />
a saída do pensamento idealista religioso das<br />
práticas cotidianas. Ver: FIROLAMO, Giovanni<br />
&amp; PRANDI, Carlo. As ciências das religiões. São<br />
Paulo, Paulus, 1999.<br />
20 Na tradição católica, afirma-se Deus como criador<br />
do mundo e toda realidade em que vivemos como<br />
obra sua. Tolkien, por diversas vezes, defendeu a<br />
religião e a Igreja Católica. Nas escrituras bíblicas,<br />
narrativa da criação, tanto na tradição judaica, no<br />
Antigo Testamento, como centro em Deus criador,<br />
como nos evangelhos, o Novo Testamento, vendo<br />
Deus como Pai, tal qual na oração do pai-nosso.<br />
21 “Mentiras não compõem o peito humano,/que<br />
do único Sábio tira o seu plano/e o recorda. Inda<br />
que alienado,/algo que não se perdeu nem foi<br />
mudado./Desgraçado está, mas não destronado,/<br />
trapos da nobreza em que foi trajado,/domínio do<br />
mundo por criação:/o deus Artefato não é o seu<br />
quinhão,/homem, subcriador, luz refratada/em<br />
quem a cor branca é despedaçada/para muitos<br />
tons, e recombinada,/forma viva mente a mente<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 22<br />
passada./Se todas as cavas do mundo enchemos/<br />
com elfos e duendes, se fizemos/deuses com casas<br />
de treva e de luz,/se plantamos dragões, a nós<br />
conduz/um direito. E não foi revogado./Criamos<br />
tal como fomos criados” (Lopes, 2006, p. 156).<br />
22 “Não é difícil imaginar a excitação e a alegria peculiar<br />
que alguém sentiria se alguma estória de fadas<br />
especialmente bela se mostrasse ‘primariamente’<br />
verdadeira, sua narrativa ser história, sem, por<br />
meio disso, necessariamente perder a significância<br />
alegórica ou mítica que possuíra. Isso não é<br />
difícil, porque não se exige que se tente conceber<br />
qualquer coisa de uma qualidade desconhecida.<br />
A alegria teria exatamente a mesma qualidade, se<br />
não o mesmo grau, que a alegria à qual a ‘virada’<br />
numa estória de fadas dá: tal alegria tem o próprio<br />
sabor da verdade primária (de outra forma o seu<br />
nome não seria alegria.). Ela olha adiante (ou atrás:<br />
a direção a esse respeito é desimportante) para a<br />
Grande Eucatástrofe. A alegria cristã, a Glòria, é do<br />
mesmo tipo; mas é preeminente (infinitamente, se<br />
nossa capacidade não fosse finita) elevada e alegre.<br />
Porque essa estória é suprema, e é verdadeira. A<br />
arte foi verifeita. Deus é o Senhor, de anjos, de<br />
seres humanos — e de elfos. Lenda e história se<br />
encontraram e fundiram” (Lopes, 2006, p. 137).<br />
23 Aurelius Agostinus (354-430 d.C.) é considerado<br />
um dos pilares da filosofia cristã. Professor de<br />
retórica, filósofo, sacerdote, fundador de mosteiros<br />
e enfim bispo de Hipona, na África romana, sua<br />
vasta obra foi lida e suas idéias foram a base de<br />
toda cristandade medieval.<br />
24 Livro extenso e cheio de referências ao mundo<br />
antigo, tanto romano como hebraico, A cidade de<br />
Deus (413-426) foi escrito como fundamento da<br />
percepção cristã da história, das instituições e do<br />
poder. Após a destruição de Roma em 410, e após<br />
o embate pelagiano sobre o livre-arbítrio e a graça,<br />
Agostinho se dedica a descrever como Deus age<br />
entre os seres humanos e na história do mundo,<br />
conduzindo a humanidade em direção à salvação<br />
e de acordo com os planos divinos.<br />
25 Uma das maiores polêmicas do pensamento<br />
agostiniano é a revisão que o autor realiza de<br />
suas primeiras obras. Sobre a questão do querer,<br />
poder e fazer, no livro a Graça e liberdade (427),<br />
após a condenação das doutrinas pelagianas,<br />
Agostinho se propõe a elucidar as relações entre<br />
graça, que é concessão gratuita de Deus, algo fora<br />
da capacidade humana, e liberdade, como atributo<br />
que caracteriza a vontade humana. Afirmando<br />
que tanto uma como a outra são necessárias na<br />
dinâmica da salvação, Agostinho afirma que ao ser<br />
humano é necessário querer a graça e para isso é<br />
necessário a liberdade, porém não cabe a ela poder<br />
e fazer, que é concessão da graça.<br />
26 Livro escrito em forma de diálogo. Agostinho<br />
traça os primeiros fundamentos de sua filosofia,<br />
que busca compreender como é possível ao ser<br />
humano cometer o mal e ao mesmo tempo buscar<br />
o bem. A resposta se faz na análise das várias<br />
opções do ser humano em relação a Deus, e a<br />
irrestrita capacidade humana de agir livremente.<br />
Em O livre-arbítrio (387) muitos críticos indicam<br />
a contradição entre querer e poder que Agostinho<br />
apresenta no conjunto de sua obra.<br />
27 Pinheiro (1986), em nota explicativa do texto, afirma:<br />
“Termo derivado do verbo latino afficere, traduz a<br />
palavra affectio, e designa qualquer disposição ou<br />
estado psíquico, em geral de componente afetiva”<br />
(p. 59).<br />
28 Em O livre-arbítrio, em nota explicativa, Pinheiro<br />
define assim fruição: “No texto latino, encontra-se<br />
o verbo perfrui, que se poderia verter por gozar.<br />
Evita-se esta expressão por encontrar-se bastante<br />
materializada, e por Agostinho ter criado a célebre<br />
doutrina moral do uso contraposto à fruição,<br />
reservando para esta a suprema alegria da posse<br />
de Deus. Em conexão com essa doutrina, difruir<br />
exprime o ato de alegria espiritual” (p. 60).<br />
29 “O mito tem outras formas do que a (agora<br />
desacreditada) alegoria mítica da natureza: o sol,<br />
as estações, o mar e essas coisas&#8230; O significado<br />
de um mito não é facilmente posto no papel pela<br />
racionalidade analítica. Este é melhor quando é<br />
apresentado por um poeta que sente ao invés de<br />
explicitar o que o tema ostenta; que o apresenta<br />
encarnado no mundo da história e da geografia,<br />
como nosso poeta tem feito. Seu defensor está em<br />
desvantagem: a não ser que ele seja cuidadoso e fale<br />
em parábolas, ele vai matar o que está estudando<br />
através da alegoria, e, mais ainda, provavelmente<br />
isso não vai funcionar. Pois o mito está vivo como<br />
um um todo e em todas as suas partes, e morre<br />
antes que possa ser dissecado” (tradução minha).<br />
30 Na discussão do símbolo, é a representação que<br />
une uma figura conhecida e representável ao<br />
mistério não-representável. O dragão pode ser<br />
descrito, mas o que de fato ele significa não. Eis<br />
a fundamental diferença entre uma alegoria, que<br />
podemos explicar o que representa, e o símbolo,<br />
que mantém uma parte no âmbito do mistério. Ver:<br />
CROATTO, Severino. As linguagens da experiência<br />
religiosa. São Paulo, Paulinas, 2001.<br />
31 Midgard era o reino do meio, como a mitologia<br />
escandinava chamava a Terra em que moramos. A<br />
Ciberteologia &#8211; Revista de Teologia &amp; Cultura &#8211; Ano II, n. 14 23<br />
serpente é morta por Thor, o deus do trovão e da<br />
guerra, que anda nove passos e morre por causa<br />
do veneno. A relação entre este trecho do mito e<br />
a morte de Beowulf é notória. Thor é considerado<br />
o deus mais poderosos depois de Odin, o pai dos<br />
deuses. Ver: BULFINCH, Thomas. O livro de ouro<br />
da mitologia. A Idade da Fábula. Rio de Janeiro,<br />
Ediouro, 1999.<br />
32 O símbolo de doação de anéis está ligado à<br />
capacidade do rei de estabelecer alianças e<br />
compromissos, assim como sua generosidade.<br />
Ver: GALVÃO, Ary Gonzales. Beowulf. São Paulo,<br />
Hucitec, 1992.<br />
33 “Beowulf é considerado, naturalmente, um documento<br />
histórico de primeira ordem para o estudo do modo e do<br />
pensamento do período e talvez demasiado pouco usado<br />
para a finalidade por eminentes historiadores. Mas é o modo<br />
do autor, o molde essencial de sua apreensão imaginativa<br />
do mundo, que é meu interesse, não história por sua própria<br />
causa. Eu estou interessado nesta época da fusão somente<br />
enquanto pode ajudar-nos a compreender o poema. E no<br />
poema eu penso que nós podemos observar não a confusão,<br />
um coração dividido ou negócios atrapalhados, mas uma<br />
fusão que tenha ocorrido em um ponto certo no contato<br />
entre velho e novo, um produto do pensamento e a emoção<br />
profunda. Um dos elementos mais potentes nessa fusão é<br />
a coragem nortista: a teoria da coragem, que é a grande<br />
contribuição da inicial literatura nortista” (tradução minha).<br />
34 A preocupação de Tolkien de entender como<br />
os evangelhos podem ser acreditados, mesmo<br />
trazendo coisas impossíveis, como os milagres, é<br />
amplamente debatida em suas cartas. A passagem<br />
do Evangelho de uma estória de fadas, ou seja:<br />
de mundo secundário a um mundo primário, a<br />
consciência, ou fé, de que tais coisas realmente<br />
aconteceram, era o grande fascínio de Tolkien. Ver:<br />
CARPENTER, Humpfrey (Org.). As cartas de J. R. R.<br />
Tolkien. Curitiba, Arte e Letra, 2006.<br />
35 Poeta romano (70 a.C. a 19 a.C.), principal poeta<br />
épico em língua latina. Considerado o poeta que<br />
inspirou os ideais imperiais em Roma.<br />
36 Poeta grego do século VIII a.C., considerado<br />
fundador da poesia épica grega, cujas obras<br />
fundamentais são Odisséia e Ilíada, que descrevem<br />
a guerra de Tróia e o retorno de Ulisses a Ítaca.<br />
37 “Em Beowulf nós temos, então, um poema histórico<br />
sobre o passado pagão, ou uma tentativa que — a<br />
fidelidade histórica literal fundada na pesquisa<br />
moderna, naturalmente, não tentou. É um poema<br />
por um homem instruído escrevendo sobre tempos<br />
antigos, que ao olhar para trás no heroísmo e no<br />
pesar sente neles algo permanente e algo simbólico.<br />
Assim, longe de ser um confuso semipagão<br />
— historicamente improvável para um homem<br />
desse tipo no período — trouxe, provavelmente,<br />
primeiramente, a sua tarefa um conhecimento<br />
da poesia cristã, especialmente aquele da escola<br />
de Caedmon, e especialmente o Gênesis&#8230; Em<br />
segundo lugar, para sua tarefa o poeta trouxe um<br />
conhecimento considerável em narrativas e em<br />
tradições nativas&#8230;” (tradução minha).<br />
38 “É justamente porque os principais adversários em<br />
Beowulf são inumanos que a estória é mais larga e<br />
mais significativa que esse imaginário poema sobre<br />
a queda de um grande rei. Isso vislumbra o cosmo<br />
e se move com o pensamento de todos os seres<br />
humanos preocupados com o destino humano e<br />
seus esforços” (tradução minha).</div>
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		<title>Pastor prega com base em Lewis</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Jun 2011 12:31:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>gabriele</dc:creator>
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<p>Youtube: &lt;http://www.youtube.com/watch?v=hkQN5acDiP4&amp;feature=player_embedded#at=247&gt;</p>
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